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Perspectivas de paz no Cáucaso com a mediação russa

  • dri2014
  • Nov 25, 2020
  • 4 min read

Os mais recentes conflitos em Nagorno-Karabakh, que ocorrem desde setembro, parecem ter chegado a uma conclusão, que apesar de não ser uma solução definitiva, abre portas para uma futura conciliação entre as partes. Apenas um dia após o Azerbaijão ter se desculpado pela queda "acidental" de um helicóptero militar russo, na segunda-feira dia 9, que estava voando perto da fronteira sobre o espaço aéreo armênio, matando dois pilotos, um cessar-fogo significativo e, possivelmente, eficiente, veio a público e foi assinado entre os líderes da Armênia e do Azerbaijão. Diferentemente das tentativas falhas anteriores de cessar-fogo, os acordos recentemente firmados contam com a presença militar russa, por meio de 90 tanques e 380 veículos e cerca de 2 mil soldados russos que entrarão imediatamente em Nagorno-Karabakh para atuar como mantenedores da paz, para que o cumprimento do acordo seja supervisionado e garantido. No entanto, vale salientar que este não faz menção ao futuro status de Nagorno-Karabakh, abrindo margem, dessa forma, para a possibilidade de que o território que permanece fora do controle do Azerbaijão possa continuar a tentar sua existência independente, contando com a proteção das forças de paz russas.

Nesse cenário, a Rússia desempenhou papel essencial para que um acordo de cessar-fogo de Nagorno-Karabakh fosse assinado: sua ativa presença na mediação do conflito transparece a importância do desfecho observado na semana passada. O país possui laços com ambos os lados, pois fornece armas e tem a intenção de exercer maior influência na região, e por isso preza por um posicionamento mais neutro. O alinhamento natural russo com a Armênia, a qual também é membro da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) e com quem compartilha laços civilizacionais, expôs a situação delicada da Rússia e sua necessidade de dar um fim ao conflito o quanto antes, visto que os armênios estavam perdendo a guerra e buscavam por um maior envolvimento russo para enfrentar diretamente os azeris e contrabalancear a Turquia na região. É importante lembrar ainda que, durante o confronto direto, drones turcos foram enviados para apoiar as forças azerbaijanas na tentativa de capturar o território de Nagorno-Karabakh.

Putin afirmou que "os acordos alcançados criarão as condições necessárias para uma solução de longo prazo e completa da crise em torno de Nagorno-Karabakh em uma base justa e no interesse dos povos armênio e azerbaijanês." É a primeira vez que mantenedores da paz são destacados para manter os dois lados separados e as forças russas serão a chave para manter essa trégua. Sem dúvida, é provável que o helicóptero russo derrubado na segunda-feira tenha dado a Moscou uma grande influência e margem de manobra para finalmente impor sua vontade a ambas as partes no conflito. Assim, o consenso atingido foi suficiente para impulsionar a assinatura do acordo, marcando o sucesso diplomático russo que possibilitou ganhos para todos os envolvidos na situação de Nagorno-Karabakh, mesmo que ainda haja insatisfação no lado armênio.

Firmado o acordo, na Armênia, seu primeiro-ministro Nikol Pashinian ordenou o fim dos combates com o Azerbaijão, que já duravam seis semanas. Pashinian escreveu em uma rede social que a decisão foi "extremamente dolorosa para mim pessoalmente e para o nosso povo". Ele acrescentou: “A decisão é tomada com base em análises profundas da situação de combate e em discussão com os melhores especialistas da área”. Logo após o anúncio, milhares de pessoas correram para a praça principal de Yerevan, capital da Armênia, para protestar contra o acordo, muitos gritando: "Não vamos desistir de nossas terras!"

Já o Azerbaijão, apesar de estar em uma posição mais vantajosa na disputa, com seu armamento superior e ganhos significativos no campo de batalha, fatos estes que reduziriam seu incentivo para buscar um cessar-fogo, comemorou o acordo de paz: azerbaijanos foram vistos celebrando nas ruas de Baku, capital do país. Com a captura recente de Shusha, segunda maior cidade de Nagorno-Karabakh, de grande valor estratégico e simbólico para os azerbaijanos e antigo centro da comunidade azerbaijana durante a era soviética, o Azerbaijão reafirmou seu objetivo maior de retomar o controle da região. Tal território representa uma das incursões significativas realizadas pelo presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, dentro e ao redor de Nagorno-Karabakh, incluindo os territórios que haviam sido perdidos durante a guerra no início dos anos 1990 e dos quais centenas de milhares de azerbaijanos foram forçados a fugir.

Em uma hipótese na qual essa guerra se prolongasse e levasse a uma derrota completa do lado armênio, as consequências seriam o enfraquecimento da imagem da Rússia, pois a mensagem que ficaria na comunidade internacional seria a de que se a Rússia não consegue dar apoio aos seus próprios aliados, inclusive numa área fronteiriça ao seu território, então tê-la como aliada não significaria muito. Além disso, uma vitória do Azerbaijão poderia incentivar outros países, a exemplo da Geórgia e Ucrânia, a usar a via militar para terminar com seus próprios conflitos separatistas na região, desestabilizando mais ainda a zona.

Os acordos firmados até o momento instam que a missão de paz russa durará inicialmente cinco anos, momento em que a Armênia ou o Azerbaijão podem exigir seu encerramento. Caso a situação final de Nagorno-Karabakh não seja definida até lá, pode-se bem imaginar que o Azerbaijão pedirá aos russos que saiam para que terminem rapidamente a investida que já vinha sido realizada, por meios bélicos.

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