Erdogan e o Sonho do Califado Otomano
- dri2014
- Oct 25, 2020
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Nos anos recentes, a Turquia tem cada vez mais tomado espaço nas manchetes internacionais e despertado a preocupação de outros Estados, devido às posturas agressivas do seu presidente, Recep Tayyip Erdoğan, e ao forte engajamento do país na região.
Em termos estratégico-geográficos, a Turquia, impedida de expandir sua influência e poder a oeste, onde estão a União Europeia e a OTAN, ao norte, dado o poder da Rússia, tenta recriar sua esfera de influência do passado: a região do antigo Império Otomano. É o que tem demonstrado uma série de atitudes e posicionamentos do governo de Erdoğan, sobretudo em matéria de política externa, que por sua vez favorecem a instabilidade regional.
O grandioso império otomano do passado abrangeu territórios do Leste e do Sul da Europa, Norte da África, parte do Sudeste Asiático, além do Oriente Médio. Em agosto de 2020, o governo turco comemorou o 949º aniversário da Batalha de Manzikert de 1071, na qual os turcor derrotaram forças do império bizantino e estabeleceram sua hegemonia na região. Rememorando essa vitória, o Ministério da Comunicação da Turquia lançou um videoclipe intitulado "Red Apple March", com forte viés nacionalista, que ressaltava a herança otomana do país.
No vídeo, de pouco mais de 4 minutos, apresenta-se os modernos militares turcos como herdeiros dos militares milenares, à medida que são mostrados tanques, caças, helicópteros de ataque, foguetes, forças especiais e embarcações navais, incluindo os navios Fatih e Oruç Reis, que recentemente pesquisaram gás natural no Mar Negro e no Mar Mediterrâneo, fonte dos atritos com a Grécia. Uma seção do vídeo também ressalta a figura do presidente, mostrando imagens de Erdoğan passando por uma fileira de soldados, cortada com a imagem de um ator retratando um sultão otomano fazendo o mesmo. O objetivo da propaganda governamental era óbvio: retratar o atual governo de Erdoğan como o sucessor legítimo do Califado Otomano.
Invocando um nacionalismo triunfante, o presidente turco tem se aproveitado de solenidades públicas para proclamar o poder insuperável do país: “Quando combinamos nossa superioridade tecnológica, nossos recursos humanos totalmente desenvolvidos e nosso poder espiritual […] Com a permissão de Allah, não há poder que possa impedir este país”. Mais recentemente, na abertura do novo ano legislativo do parlamento turco, no início de outubro, Erdoğan chegou a reivindicar a propriedade, a herança e influência cultural turco-otomana sobre a cidade sagrada: "Jerusalém é nossa cidade; é uma cidade nossa. É possível encontrar os vestígios da resistência otomana nesta cidade, que fomos forçados a abandonar em lágrimas durante a Primeira Guerra Mundial".
Implementando uma visão expansionista, a política externa turca tem promovido a intervenção da Turquia em diversos países do Oriente Médio e o acirramento de tensões regionais.
Atualmente, a Turquia está diretamente envolvida na guerra civil da Líbia. Desde a queda do ditador Muammar Gaddafi, o país mergulhou em um conflito entre milícias rivais. De um lado, o autoproclamado Exército Nacional da Líbia (LNA), liderado pelo general Khalifa Haftar, é apoiado pelo Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes – os dois últimos compartilham preocupações em relação à Irmandade Muçulmana. De outro lado, o Governo do Acordo Nacional (GNA), reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), tem sido defendido pela Turquia e Qatar, países que adotaram uma postura anti-Haftar devido ao apoio às forças da Irmandade Muçulmana em meio a rivalidade regional no Golfo. Além do interesse óbvio nas reservas de petróleo e gás, a Turquia objetiva manter seus projetos lucrativos de construção na Líbia. Durante o mandato de Gaddafi, várias empresas turcas atuavam no país, movimentando bilhões em investimento. Contudo, a guerra civil de 2011 derrubou o ditador e boa parte desses investimentos. Mesmo alinhada ao governo de unidade em Trípoli, Ancara teve vários projetos de construção congelados por causa dos confrontos. Portanto, impedir que Haftar conquiste mais áreas na região significa que essas iniciativas podem ser recuperadas. Do ponto de vista histórico, a região hoje conhecida como Líbia era parte do Império Otomano desde 1551.
A interferência de Ancara não tem se limitado à Líbia. Em junho deste ano, forças especiais lançaram uma grande operação, via aérea e terrestre, contra militantes curdos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) na região norte do Iraque, invadindo, portanto, o território iraquiano e afrontando sua soberania. A iniciativa mais recente, motivada pelas autoridades turcas, teve como alvo 150 instalações suspeitas do PKK. Acredita-se que essa empreitada foi beneficiada pelo acesso a bases militares no território, fornecidas pelo Governo Regional do Curdistão (KRG) que também possui um relacionamento com o PKK. Além disso, há suspeitas de que essa tenha sido uma manobra coordenada internacionalmente por forças turcas e iranianas, já que foi a primeira vez que a zona em questão foi bombardeada. A investida turca atraiu repreensões do governo de Bagdá e da Liga Árabe.
Já na Síria, os objetivos anunciados da Turquia não se distanciam daqueles no Iraque. Segundo a Turquia, a invasão e ocupação permanente de território sírio teria como objetivo a repressão do movimento Curdo, que se concentra majoritariamente na Síria, após se aproveitarem do vácuo de poder que possibilitou-lhes tomar conta da parte norte do país. O confronto entre tropas turcas e curdas vem desestabilizando a região e aumentando expressivamente o número de refugiados no país. Dessa forma, a Turquia propôs a criação de uma “zona segura” que abrigaria os refugiados sírios que migraram para a Turquia por conta da guerra, mas inicialmente não obteve apoio dos EUA e Rússia. Em agosto de 2019, os EUA concordaram em manter uma zona segura menor do que a proposta pela Turquia, mas após o objetivo americano de derrotar o ISIS ser conquistado com o apoio curdo, proporcionado pela convergência de interesses oportuna naquele momento, o presidente Trump ordenou a retirada das tropas americanas da Síria em outubro de 2019. Esse fato viabilizou o avanço turco incisivo, adentrando cerca de 30 quilômetros em território sírio, que desestabilizou ainda mais o tabuleiro estratégico da região com a Operação Nascente de Paz ainda em outubro de 2019, dando continuidade a outras duas operações realizadas com o intuito de expulsar as forças da milícia curda síria considerada "terrorista" por Ancara. Historicamente, os otomanos governaram a Síria por 400 anos.
Diante desse cenário, a União Europeia, que já criticava a postura turca, reiterou seu posicionamento e urgiu a retirada turca da Síria. Entretanto, o bloco foi acusado pela Turquia de ser “arrogante” e de ter “critérios duplos”, além de receber uma réplica irônica do Ministro das Relações Exteriores turco Mevlut Cavusoglu: “Vocês estão pedindo à Turquia que se retire de Idlib? Não, porque neste caso os refugiados migrariam em massa para a Europa”.
A conduta turca de aumentar sua esfera de influência na região vem se evidenciando também no recente conflito entre Armênia e Azerbaijão. O presidente turco Erdoğan declarou num discurso que “Antes que as águas do Mediterrâneo tivessem se acalmado, desenvolvimentos críticos começaram na região do Cáucaso”, referindo-se primeiramente ao desentendimento de julho de 2020 com a Grécia, apoiada pela França. Chamando a atenção para os eventos no Cáucaso, Erdogan reforçou o completo apoio turco ao Azerbaijão, prometendo que "A Turquia não desistirá da luta pelo território do Alto Karabakh no Azerbaijão até que seja libertado das forças de ocupação armênias". Lembre-se que os armênios, antes da fundação do seu país, foram vítimas de um projeto de genocídio dos otomanos durante a Primeira Guerra Mundial
A interferência turca no conflito entre Armênia e Azerbaijão se insere num esquema muito maior dos interesses turcos de projetar sua influência e controle sobre a região do Cáucaso. No entanto, a estratégia de Erdoğan, de intervenção simultânea em diversos países, vem trazendo mais desafios e inimizades do que o tão almejado renascimento Império Otomano.
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