Avanço na Cooperação Militar entre China e Rússia
- dri2014
- Aug 14, 2023
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No mês de julho deste ano de 2023, uma significativa colaboração militar ocorreu na região central do Mar do Japão, onde foi realizado um exercício naval conjunto entre Rússia e China, coordenado pelo comando do Teatro do Norte do Exército de Libertação do Povo Chinês (ELP). O evento marca a segunda participação da Rússia nos exercícios estratégicos anuais do ELP, a primeira ocorrendo em agosto de 2021 na Região Autônoma de Ningxia Hui, no noroeste da China, marcando a primeira vez em que o Estado chinês convidou forças estrangeiras para participar dos exercícios estratégicos em seu território.
De acordo informações do Ministério da Defesa Nacional da China, esses exercícios têm uma dupla finalidade: a salvaguarda dos interesses nacionais de ambos os países em relação à passagem pelas águas do Mar do Japão, e o aprimoramento contínuo da capacidade de coordenação entre as forças armadas dos dois países, a fim de garantir conjuntamente a paz e a estabilidade na região. Essa parceria estratégica demonstra de forma clara a estreita cooperação militar entre Rússia e China que tem se fortalecido ao longo dos anos, com particular ênfase nos desenvolvimentos ocorridos a partir de 2018.
Desde 2018, a China tem consistentemente enviado tropas para participar de exercícios militares estratégicos na Rússia, notadamente nos eventos conhecidos como "Vostok-2018", "Tsentr-2019" e "Kavkaz-2020". Adicionalmente, em 2022, um marco adicional foi atingido quando o ELP mobilizou simultaneamente forças terrestres, navais e aéreas para a Rússia, engajando-se nos exercícios "Vostok-2022", cujas manobras abrangeram operações terrestres em 13 locais russos e atividades navais em áreas relevantes do Mar do Japão, onde também se desdobraram os exercícios "Northern/Interaction-2023". Este local foi selecionado por ser uma região de águas internacionais, permitindo a prática de operações de treinamento militar em conformidade com o direito internacional. Entretanto, essas atividades coordenadas perto das ilhas japonesas provocaram protestos de Tóquio, considerando-as uma intrusão injustificada.
Ao discutir os exercícios conduzidos no Mar do Japão, a pesquisadora da Academia de Ciências Militares e especialista em questões militares russas, Li Shuyin, declarou que "Os exercícios conjuntos entre a China e a Rússia demonstram o aprofundamento da confiança política e militar mútua entre os dois países e sua determinação e vontade de combater o terrorismo internacional e manter a segurança e a estabilidade regionais. A relativa estabilidade da situação regional nos últimos anos está intimamente relacionada aos bens de segurança pública fornecidos pela China e pela Rússia".
Anterior ao exercício supracitado, um outro evento ocorreu em fevereiro deste ano, denominado de “Mosi-2”. Esse exercício teve um caráter exclusivamente marítimo, reunindo, além da Rússia e da China, a África do Sul, e as operações tomaram lugar no Oceano Índico, próximo ao porto de Durban. Ele contou com a participação de dois navios de guerra russos, três navios de guerra chineses e uma fragata naval sul-africana. Durante esse evento, a Rússia atingiu a marca de um ano de duração da Guerra na Ucrânia. Isso ilustra que, apesar dos esforços do Ocidente em aplicar boicotes diplomáticos, econômicos e políticos à Rússia, o país não experimentou mudanças significativas em sua reputação no cenário global sul, evidenciado pelo fato de que tanto a África do Sul quanto a China optaram por não condenar a Rússia por sua intervenção na Ucrânia. Assim, esses exercícios militares russos desempenham um papel importante ao sinalizar a continuidade do apoio, mesmo diante das tentativas ocidentais de isolar Moscou.
Um exemplo adicional da cooperação russo-chinesa se manifesta, também, nos recentes exercícios navais conjuntos com o Irã no Golfo de Omã, denominados “Security Bond-2023”, que aconteceram em março deste ano de 2023. Esses exercícios também ocorreram em meio a tensões elevadas entre os EUA e a China sobre uma série de questões, incluindo a recusa da China em criticar Moscou por sua invasão da Ucrânia e o apoio contínuo à economia russa, ressaltando os crescentes vínculos militares e políticos da China com nações que foram amplamente sancionadas pelos EUA e seus parceiros. O Irã e os EUA são adversários desde a fundação da República Islâmica e a tomada de diplomatas americanos como reféns em 1979.
Entretanto, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, John Kirby, disse que a Casa Branca não está preocupada com os exercícios, já que não foi a primeira vez que russos e chineses treinam juntos. “Vamos vigiar, vamos monitorar, obviamente, para garantir que não haja ameaça decorrente desse exercício de treinamento aos nossos interesses de segurança nacional ou de nossos aliados e parceiros na região”, disse ele.
Por outro lado, um novo exercício militar conjunto russo-chinês, realizado agora em agosto no Mar de Bering, localizado em aguas internacionais, mas próximo ao Alasca, acendeu o alerta no Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Embora treinamentos conjuntos entre essas duas nações já tenham ocorrido anteriormente na região, a dimensão impressionante da frota naval deslocada para o Alasca gerou inquietação nos Estados Unidos, levando-os a “responder a altura”, por meio do envio de quatro navios de guerra da Marinha dos EUA e ativos aéreos para a área.
Um analista e capitão aposentado da Marinha americano não identificado disse que foi "uma estreia histórica" e "altamente provocativa" – especialmente devido ao cenário da guerra na Ucrânia. Em anos anteriores, precisamente em 2021 e 2022, ocorreram manobras navais conjuntas entre Rússia e China no Mar de Bering, mas essas operações nunca atingiram a amplitude daquilo que está sendo relatado a respeito desse novo incidente. Parece ser um reflexo concreto da promessa de "amizade sem limites" feita por Putin e Xi, uma promessa que emergiu pela primeira vez nas etapas iniciais da guerra na Ucrânia. Ambos os países estão atualmente exibindo seu poderio militar nas proximidades do continente norte-americano, em resposta talvez a exercícios navais semelhantes realizados pelos EUA e seus aliados no Mar da China Meridional e no estreito de Taiwan, ou exercícios militares amplos da OTAN próximos das fronteiras da Rússia.
Os exercícios militares conjuntos sino-russos estão desempenhando um papel fundamental no fortalecimento contínuo da cooperação em segurança convencional. Espera-se que essas manobras avancem a integração, abrangendo uma variedade de domínios operacionais. Eles também refletem um compromisso em abordar desafios de segurança não convencionais, como o combate ao terrorismo, a luta contra a pirataria e até operações de resgate humanitário. Nesse sentido, a abrangência dos exercícios demonstra o desejo conjunto da Rússia e da China de fortalecer suas capacidades em uma ampla gama de cenários de segurança, tanto tradicionais quanto emergentes.
A crescente proximidade entre Rússia e China, em termos de cooperação militar, reflete uma combinação de interesses estratégicos, objetivos geopolíticos compartilhados e uma busca por diversificação de parcerias em um cenário global em mutação. Ela é impulsionada por uma busca por equilíbrio de poder em face da pretensa hegemonia do Ocidente, e demonstra o surgimento de um polo alternativo de poder numa ordem internacional verdadeiramente multipolar. As implicações estratégicas e geopolíticas dessa colaboração são profundas: ela desafia a visão de uma ordem internacional dominada pelo Ocidente, reconfigura dinâmicas de poder regionais e globais, e serve como uma manifestação concreta de uma parceria resiliente que reforça a capacidade desses países de enfrentar desafios compartilhados e projetar sua influência em várias partes do mundo.
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