A reaproximação entre Rússia e Turquia
- dri2014
- Oct 26, 2021
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A relação entre a Rússia e a Turquia é conturbada desde os tempos dos Impérios Russo e Turco-Otomano. As pretensões territoriais otomanas na região dos Balcãs iam de encontro aos interesses russos, e estes, por outro lado, tinham interesse expansionista sobre parte do território otomano. De fato, ambos travaram inúmeras guerras, do século XVI à Primeira Guerra Mundial, período ultimo que marcou suas quedas, quando houve a Revolução Russa (1917) e, em seguida, a dissolução do Império Turco-Otomano. A memória, contudo, é continuada pelos países que podem ser chamados principais herdeiros desta história belicosa, de modo que até hoje Rússia e Turquia encontram-se em lados opostos em conflitos na Síria e na Líbia, por exemplo.
Todavia, a busca da defesa de seus próprios interesses leva os países a não seguir uma única linha de atuação em política externa, de maneira que a influência dos Estados Unidos da América (EUA) no sistema internacional e as relações dos dois países com este importante ator estimulam novas formas de cooperação. Com o intuito de garantir sua influência, Rússia e Turquia tem atuado como “concorrentes cooperantes”, apoiando lados diferentes em conflitos ao redor do mundo, mas cooperando no tangente ao embate contra a hegemonia estadunidense.
Apesar de saber dos problemas domésticos turcos com o separatismo curdo, que ameaça a integridade territorial do país, os EUA, no conflito sírio, cujo objetivo inicial era a mudança de regime com a derrubada do ditador Bashar Al-Assad, apoiam grupos rebeldes curdos que se opõem ao governo local, os quais a Turquia vê como grupos terroristas. Isso denota que mesmo sendo aliados, os países possuem importantes discordâncias, o que contribui diretamente para a aproximação com a Rússia. Enquanto enfrenta dificuldades nas tratativas com o atual presidente dos EUA, Erdogan encontrou-se com Putin, em uma Cimeira em Sochi, onde discutiram, entre outras coisas, a guerra na Síria.
É importante notar que a relação entre EUA e Turquia é definida exclusivamente pelo âmbito da segurança, sendo o país de Erdogan um importante membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) desde 1952. Ha bases militares essenciais da organização no território turco e a Turquia representa um ponto estratégico dos Estados Unidos na região do Oriente Médio, além do país ser considerado um aliado na “Guerra ao Terror”. Ainda assim, a divergência de percepção de ameaças securitárias leva EUA e Turquia a uma crise na qual a aproximação com a Rússia é uma alternativa.
Sem dúvidas, o governo dos Estados Unidos vê com apreensão a aproximação militar turco-russa, desaprovando a compra turca do sistema russo de defesa aérea s-400, chegando a advertir, por meio do Comitê de Relações Exteriores do Senado, a possibilidade de adoção de novas sanções - para dissuadir “adversários” - contra a Turquia, caso essa realmente efetue uma nova compra do sistema de defesa aérea conforme a declaração de Erdogan. Além disso, o jornal The Times of India mostra que ainda reagindo à compra, os EUA expulsaram a Turquia do programa de caça de ataque F-35, além de ter imposto outras sanções. Dessa forma, mesmo possuindo grandes divergências entre si, a aproximação da Turquia e da Rússia, bem como a compra do sistema de defesa – no cenário da participação turca na OTAN – afetam a unidade da Aliança Atlântica, e as ações turcas mostram que Erdogan ignora os avisos da OTAN ao considerar a cooperação com a Rússia como de “extrema importância”.
Não se pode esquecer que em setembro desse ano, Erdogan acusou o governo dos EUA de apoiar “organizações terroristas”, fazendo referências a parceiros estadunidense como as “Unidades de Proteção ao Povo (YPG - sigla em inglês) – filiadas ao banido Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK - sigla em inglês) – no norte da Síria, lembra a Al Jazeera. Neste conflito, a parceria dos EUA com os curdos sírios das YPG é essencial para a presença estadunidense nas regiões norte e nordeste sírias, ricas em petróleo, ao passo que o governo turco considera essas unidades como terroristas pelo fato de reivindicarem territórios curdos turcos (e de demais países da região) para a instalação do tão sonhado “Curdistão”. A Turquia estaria com o receio de um suposto apoio estadunidense à criação de um Estado curdo que enfraqueceria não só a Turquia, mas também Síria, Irã e Iraque.
Por outro lado, por serem concorrentes cooperantes e apoiarem lados opostos em questões como Síria, Ucrânia e a região do Cáucaso, nem tudo é um mar de rosas na relação bilateral entre a Rússia e a Turquia. As divergências entre os dois países não giram em torno de pontos pequenos. A maior presença russa na questão síria, por exemplo, é considerada pelo governo turco como um problema que pode gerar maior deslocamento de refugiados para terras turcas. Demais, o governo russo tem iniciado conversas e negociações com o grupo curdo YPG, garantindo proteção a esses na fronteira entre Turquia e Síria e desagradando ainda mais o governo de Erdogan. Quanto à questão ucraniana, Erdogan declarou que a Turquia acreditava que era importante manter a integridade territorial da Ucrânia, incluindo a Crimeia. Isso, é claro, irritou os russos, que já haviam respondido a afirmações semelhantes anteriormente alertando contra “o fomento de sentimentos militaristas em Kiev”, lembra o The Times of India. No Cáucaso, graças ao Bayraktar TB2, veículo de combate não-tripulado (drone) que o governo turco vendeu ao Azerbaijão, este pôde assegurar uma rápida vitória sobre a Armênia, o que certamente não foi bastante palatável para a Rússia, que é aliada da Armênia e desejaria ter total influência sobre a região. Ainda assim, o país conseguiu permanecer como mediador das negociações de paz entre as nações do Cáucaso e é com sua presença militar na região que o acordo de cessar-fogo tem sido mantido.
Turquia e Rússia são, afinal, rivais regionais, e é possível que de fato haja mais divergências do que convergências. Contudo, há um ponto fulcral que determina a importância de suas relações: a estratégia contra a hegemonia norte-americana. À medida que os EUA sobem o tom de suas ações punitivas, como o aumento de sanções, cresce o sentimento antiamericano na Turquia, o receio de que o país seja isolado, bem como aumenta a urgência de uma política de segurança mais autônoma. Enquanto a geopolítica da Guerra Fria favoreceu a aliança turco-americana, as dinâmicas do sistema internacional atual mostram-se menos simplistas e mais desafiadoras, isto é, embora rivais históricos e regionais, Turquia e Rússia desejam fortalecer sua posição de relevância nas relações internacionais, são países que se veem como atores importantes, e desejam projetar seu poder nos países vizinhos. Esse objetivo em comum, aliado a uma política externa que busca não prejudicar o comércio bilateral mesmo em meio a disputas geopolíticas –exemplo disso é o gasoduto Turkstream – explica porque se deu essa aproximação e porque ela tende a perdurar. Isso não quer dizer que os países formalizarão alianças militares, mas a leitura pensando em uma ou duas esferas de poder torna-se rasa diante das configurações do atual sistema internacional.
Para Galip Dalay, pesquisador da Universidade de Oxford, em entrevista à Al Jazeera, a compra do sistema de mísseis pela Turquia é também “percebida como uma manifestação da identidade geopolítica da Turquia, cada vez mais afastando do Ocidente e se aproximando da Rússia e da China”. O valor estratégico da Turquia, como membro da OTAN, poderá determinar se as relações desse país com o Ocidente se estremecerão de vez ou não.
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