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A Iniciativa de Paz do Lider Húngaro

  • dri2014
  • Jul 15, 2024
  • 6 min read

A cada seis meses, a presidência rotativa do Conselho da União Europeia (UE) estabelece seu novo representante, garantindo a continuidade dos trabalhos do bloco. Durante esse período, os estados-membros trabalham em grupos de três, chamados "trios", que estabelecem metas de longo prazo e preparam uma agenda comum para 18 meses. O trio atual é composto pelas presidências da Espanha, Bélgica e Hungria, sendo que cada país desenvolve um programa detalhado para seus seis meses de presidência. A Hungria assumiu a presidência do Conselho da União Europeia neste mês de julho de 2024, com o objetivo de atuar como um mediador imparcial, promovendo a cooperação sincera entre os estados-membros e as instituições. Assim, o país afirma intensificar seus esforços para garantir a paz, a segurança e a prosperidade de uma Europa forte.

Durante sua presidência, a Hungria focará em sete áreas temáticas: melhorar a competitividade da UE, reforçar a política de defesa, promover uma política de alargamento consistente e baseada no mérito, conter a migração ilegal, moldar o futuro da política de coesão, promover uma política agrícola orientada para os agricultores e enfrentar os desafios demográficos. Em meio a múltiplos desafios internacionais e com a guerra russo-ucraniana na vizinhança europeia, a Hungria enfatiza o dever de melhorar a produtividade e a competitividade do bloco, além de fortalecer a base tecnológica e industrial de defesa europeia. A presidência húngara também visa adotar um Novo Acordo de Competitividade Europeu, para enfrentar os efeitos econômicos adversos dos últimos anos, como alta inflação e preços elevados de energia, e colocar a economia europeia em um caminho de crescimento sustentável.

A Hungria, sob comando de Orbán, tem se mostrado favorável à construção de uma resolução pacífica imediata para o conflito entre Rússia e Ucrânia. Assim, o líder húngaro visitou os dois países, na expectativa de iniciar um cessar-fogo, seguido de negociações para a paz, e suscitou insatisfação por parte das demais autoridades europeias.

Em reunião com o presidente ucraniano, Orbán afirmou o desejo de melhorar os laços de seu país com a Ucrânia, e sugeriu que um cessar-fogo imediato poderia acelerar negociações de paz entre os países em conflito. O primeiro-ministro húngaro também se ofereceu para ajudar a modernizar a economia ucraniana, numa aparente tentativa de apaziguamento das relações com seu vizinho, que há algum tempo tem afrouxado os laços com a Hungria. Uma outra questão levantada por Orban foi a condição dos ucranianos de origem húngara na região da Transcapárcia, que vêm sofrendo diversas formas de violações dos seus direitos de minoria por parte do Estado ucraniano.

Crítico feroz da ajuda militar ocidental à Ucrânia, o representante húngaro atrasou repetidamente alguns dos planos europeus de sancionar a Rússia. A Hungria também provocou descontentamento, ao criticar a abertura de negociações formais de adesão à UE com Kiev. No ano passado, o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, foi filmado mantendo diversas conversas tensas com Orban em fóruns internacionais, em decorrência de tais situações.

A visita de Orbán a Kiev, no entanto, não pareceu provocar incômodo ao presidente ucraniano. Falando ao lado do primeiro-ministro húngaro, Zelensky afirmou ter apreciado a visita – que foi a primeira em mais de uma década – mas enfatizou que a Ucrânia, mais que apenas paz, precisa de uma resolução “justa” ao conflito, depois de mais de dois anos lutando contra a invasão russa no país.

Orbán disse que relataria suas conversas com Zelensky aos primeiros-ministros da UE, “para que as decisões europeias necessárias possam ser tomadas”. Após visita a Kiev, o primeiro-ministro seguiu para Moscou, onde conversou com Vladimir Putin.

Em uma coletiva de imprensa após a reunião, Putin disse que as conversas com Orbán foram “francas e úteis”, e que elas giraram em torno da situação na Ucrânia. O líder russo reiterou, todavia, que, para que haja negociações, as propostas de paz de Moscou devem ser levadas em consideração. Putin também acrescentou que estava grato a Orbán pela tentativa de restaurar o diálogo entre o país e a Europa, mas afirmou que Kiev ainda não estava disposta a encerrar o conflito.

Depois das conversas com Putin, Orban se dirigiu a Pequim, onde manteve diálogo com o líder chines.

A visita de Orbán ocorreu exatamente no momento em que a Hungria assumiu a presidência rotativa da UE. Orbam fez a visita aos três países sem anúncio às demais autoridades europeias. Especificamente, a viagem a Moscou atraiu fortes críticas de líderes da UE, apesar de Orbán ter insistido que não estava representando o bloco em si.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, acusou o primeiro-ministro da Hungria de “apaziguamento” em relação a Putin e reforçou que “somente unidade e determinação são capazes de ‘pavimentar’ o caminho para uma paz abrangente, justa e duradoura na Ucrânia”. O chanceler alemão Olaf Scholz disse que a visita de Orban à Rússia não teve nada a ver com a UE e que a posição do bloco sobre o conflito permanece inalterada.

Além deles, o primeiro-ministro polonês Donald Tusk, defensor de Kiev, atacou Orban, depois que rumores de sua visita iminente começaram a circular na mídia. Tusk alegou que não conseguia acreditar que tal visita pudesse acontecer. A primeira-ministra estoniana, Kaja Kallas, que está programada para se tornar a próxima chefe de política externa e segurança da UE, também juntou-se ao coro de autoridades ocidentais que repreenderam Orban, afirmando que ele pretende “semear confusão”.

As visitas de Orbán, exatamente no momento em que a Hungria assume a presidência rotativa da UE, aumentaram a preocupação e a desconfiança no restante do bloco europeu, devido ao que consideram como laços relativamente próximos de Budapeste com Moscou. 

Enquanto isso, Orban afirmou que sua viagem foi o primeiro passo para restaurar o diálogo pela paz. O premiê húngaro reconheceu que não tinha mandato da UE para as viagens, mas que a paz não poderia ser alcançada “de uma poltrona confortável em Bruxelas”. “Não podemos ficar sentados e esperar que a guerra termine milagrosamente”, escreveu ele no X (antigo Twitter), antes de se encontrar com Putin. “Demos o primeiro passo para restaurar o diálogo”, disse ele, acrescentando que “os pontos de vista permaneceram distantes entre Kiev e Moscou”.

Em suma, tem-se que os líderes das instituições da União Europeia afirmaram que Orbán não agia em nome da organização e condenaram os seus esforços de paz. Eles se opuseram à tentativa da Hungria de mediar o conflito sem consulta prévia ou consideração do teor das conversas e propostas. Por conseguinte, os líderes europeus questionam a legitimidade e a motivação por trás dos esforços de Orbán, especialmente em um momento tão delicado para a segurança e a política europeia. Isso faz com que a oposição dos líderes da UE a um esforço de paz empreendido pela Hungria sem consulta prévia possa ser atribuída por várias razões. Em primeiro lugar, a falta de transparência e de cooperação com os outros membros da UE gera desconfiança e preocupação quanto aos verdadeiros interesses de Orbán. Além disso, a política externa e de segurança da UE baseia-se na unidade e na ação conjunta, e uma iniciativa unilateral pode enfraquecer essa união e enviar sinais contraditórios aos atores internacionais. Obviamente, dadas as manifestações dos líderes europeus antes e depois das visitas, Orban tinha plena consciência que a União Europeia jamais o apoiaria.

A UE apoiou a recente Cúpula de Paz na Suíça, mesmo sabendo que a Rússia não havia sido convidada a participar, e, portanto,  qualquer avanço significativo estaria comprometido. A decisão de apoiar essa cúpula, apesar das limitações óbvias, pode ser vista como um esforço para manter o apoio internacional à Ucrânia e, ao mesmo tempo, deslegitimar e isolar diplomaticamente a posição da Rússia no Sul global. Em outras palavras, a Cúpula de Paz não constituiu um esforço genuíno de se alcançar uma solução pacífica para o conflito.

Alguns analistas sugerem que a UE pode ter interesses estratégicos e políticos na manutenção da pressão sobre a Rússia, incluindo a consolidação de poder do bloco frente a uma ameaça externa comum. A continuidade do conflito também permitiria à UE afirmar a sua posição de liderança moral e política no cenário internacional, ao apoiar a Ucrânia contra a agressão russa. No entanto, essa postura também pode ser vista como uma barreira para uma resolução rápida do conflito, e pode eventualmente ocasionar uma crise política e econômica dentro da União.

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