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Qual a Relação Entre o Vírus, A Economia Global, e o Preço do Barril de Petróleo?

  • dri2014
  • Apr 27, 2020
  • 5 min read

A COVID-19, doença causada pelo vírus SARS-CoV-2, tem ocasionado sérias consequências mundo afora: além das centenas de milhares de casos e de mortes e do colapso na saúde pública dos países, as implicações econômicas têm se mostrado avassaladoras. Para a economia, a pandemia de coronavírus – por causa da opção de medidas de quarentena abrangendo a população, locais de comércio e indústrias - não se trata de uma crise comum, uma recessão econômica regional ou uma desaceleração pontual: ela configura-se, sobretudo, como uma paralisação abrupta do fluxo comercial de quase todo o mundo.

Em seu último relatório, o World Economic Outlook do mês de abril, o Fundo Monetário Internacional (FMI), organização internacional financeira que possui a função de oferecer orientação e ajudas financeiras aos seus países-membros, denominou tal situação como o “Grande Bloqueio”, além de classificá-la como “a maior crise que o mundo enfrentou desde a Segunda Guerra Mundial e o maior desastre econômico desde a Depressão da década de 1930”. Enquanto no início do surto, três meses atrás, esse mesmo relatório previa um crescimento suave para esse ano, hoje o cenário já mudou drasticamente. Nas últimas projeções feitas pela organização para 2020, estima-se que o produto interno bruto (PIB) das economias avançadas sofrerá uma contração de 6,1% e dos mercados emergentes e das economias em desenvolvimento uma redução de 1%. Para realizar tais projeções, o FMI tem trabalhado com três cenários alternativos preocupantes: no primeiro, esse bloqueio poderia durar 50% a mais do que o que se espera; no segundo, cogita-se uma segunda onda do vírus em 2021; por último, esses elementos são combinados em um só cenário.

Um ponto que elucida a desaceleração econômica provocada pela pandemia é a questão dos investimentos: afetando tanto países desenvolvidos como em desenvolvimento, a fuga de investimentos de risco, processo no qual investidores retiram de forma maciça seu dinheiro investido do mercado financeiro, já vem acontecendo globalmente desde março.

Além disso, os mercados globais já observam os efeitos nocivos da crise, sobretudo, no comércio do petróleo, no seu preço e principalmente a sua demanda, que caiu mais de 30% desde o começo do surto. Enquanto a demanda está associada ao estado da economia, a oferta do petróleo cru é ditada majoritariamente pelos países que mais o possuem em abundância, entre eles, EUA, Rússia, Arábia Saudita, Iraque, países que são possuidores do privilégio de regular o fluxo de parte substancial de sua produção, consequentemente influenciando o preço. Quando se tem um aumento na oferta maior do que a capacidade de absorção do mercado, os preços podem decrescer até que cheguem a um nível negativo. No cenário atual, nesta segunda-feira (20/04/2020), o tipo de petróleo mais produzido nos Estados Unidos, o WTI (West Texas Intermediate), ficou com preço negativo no mercado futuro, chegando a US$ -37,63, enquanto o barril de petróleo tipo Brent chegou a ser negociado abaixo de US$ 20.

Nessa situação, os produtores são impelidos a reduzir sua produção e, consequentemente, a oferta, para estancar a queda do preço do barril de petróleo. Simplesmente parar a produção é uma alternativa economicamente inviável. Ao mesmo tempo, buscam quem esteja disposto a estocar e transportar o excedente do produto já extraído, sendo esse serviço mais caro que a própria commodity em questão. Isto tem gerado um outro problema: a capacidade de estoque do petróleo, que não é infinita e também não é tão simples, pois exige certas cautelas sanitárias para depositá-lo por ser um material tóxico e poluente.

Devido à dificuldade de armazenamento in loco, a quantidade de petróleo armazenado no mar já chega a 250 milhões de barris, e estes petroleiros estão abandonados sem compradores. De acordo com as estimativas do Wall Street Journal, "cerca de 80 superpetroleiros dos 750 existentes em todo o mundo agora são usados ​​para armazenar petróleo em vez de transportá-lo, segundo autoridades sauditas". Somente a Arábia Saudita enviou cerca de 50 milhões de barris de petróleo para os EUA, que devem chegar nas próximas semanas. Esse fato coloca em risco a indústria petrolífera americana, e tem levado Washington a considerar o bloqueio dos desembarques sauditas de petróleo bruto ou a sobretaxação desses desembarques.

A indústria petrolífera é um setor-chave para os EUA, que na atual administração alcançou independência energética. Tendo em vista que a exploração e extração de petróleo são caras e exigem muito capital, quando os preços do petróleo despencam e as atividades de perfuração e exploração são estagnadas, isso impacta o setor interno de petróleo, pois os empregos e lucros são vinculados ao seu preço, e esse movimento pode causar um desfalque em uma forte fonte de crescimento da taxa de emprego, já enfraquecida pela COVID-19, principalmente nas áreas onde ocorre a extração. Além disso, para que ocorra a perfuração e manutenção dos poços nos depósitos de xisto, empresas financiam suas operações, aumentando o capital e assumindo dívidas. Uma queda de preços faz com que os investidores e os bancos percam dinheiro, pois os novos poços não serão mais rentáveis e as empresas dependentes de perfuração e serviços vão à falência. Portanto, mesmo se os impactos positivos dos preços mais baixos do petróleo começarem a aparecer, eles vêm com um alto custo para a economia americana e seu ritmo de crescimento.

Nesse contexto desfavorável para os produtores de petróleo, a OPEP e seus aliados, após várias reuniões de emergência, optaram por reduzir a produção, limitando-a a 9,7 milhões de barris por dia (bpd). Isso pôs fim a uma guerra de preços entre as potências petroleiras, Rússia e Arábia Saudita, que, ao disputarem uma participação maior no mercado, pressionaram o preço da mercadoria que despencou em março deste ano. Apesar da proposta inicial mencionar uma restrição de 10 milhões de bpd, o valor final acordado (9,7 milhões) é o maior corte de produção na história.

A contenção inicia no primeiro dia de maio estendendo-se até o final de junho. De julho ao fim de 2020, a redução diminuirá para 7,7 milhões de bpd. Já a partir de janeiro de 2021 até abril de 2022, o corte será de 5,8 milhões de bpd. Em uma próxima reunião, no dia 10 de junho, o grupo de 23 irá avaliar se são necessárias outras ações. O reequilíbrio do setor, mesmo com o recorde de corte, ainda é uma incerteza, pois dependem do andamento das medidas de combate à pandemia e do retorno da produção econômica e comércio.

O preço do barril do petróleo pode, também, depender da situação geopolítica no Golfo Pérsico, por onde escoam aproximadamente 20% da produção global de petróleo. O passado demonstra que quando as tensões geopolíticas na região aumentam, com a possibilidade de conflito, o preço do barril dispara. Na segunda semana de abril, 11 lanchas militares iranianas executaram manobras muito próximas de navios de guerra americanos no Golfo Pérsico. Não houve um confronto armado na ocasião, mas o presidente estadunidense anunciou recentemente que autorizou a Marinha a destruir os barcos iranianos caso isto se repita.

Essas manobras de agravamento de crise no Golfo Pérsico evidenciam o que, segundo analistas da Rabobank, “talvez seja o truque mais antigo do petróleo no Oriente Médio: você quer preços mais altos, ameace começar a quebrar coisas”. É importante, porém, ter em vista que essas ameaças só teriam efeito no curto prazo, sendo a necessidade mais urgente um reaquecimento da economia global e consequente aumento real na demanda.

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