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OMS: Quando uma Organização Está Comprometida

  • dri2014
  • Apr 20, 2020
  • 6 min read

Frente à pandemia mundial de COVID-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS), agência especializada das Nações Unidas que instrui os Estados em matéria de saúde pública e questões sanitárias e fornece orientação técnico-política, vem tendo sua conduta bastante questionada, principalmente na maneira como lidou com a China e o coronavírus. Para entender toda a problemática envolvendo a OMS, é necessário analisar alguns pontos cruciais, no que tange aos seus problemas intrínsecos e também a influência chinesa dominante sobre a organização, levando em consideração alguns equívocos cometidos e suas implicações para a saúde pública global.

Pascal Sacré, médico francês, em artigo intitulado Politics and Corruption at the World Health Organization (WHO), traduzido e publicado no Global Research, levantou severas críticas sobre a má gestão e corrupção da OMS no período da pandemia viral da H1N1, deixando claro seu posicionamento no que diz respeito ao papel das organizações internacionais no mundo. Inicialmente, o autor destaca a função do Comitê de Emergência, criado em momentos de crise, como o surgimento de uma pandemia. Além de auxiliar o Diretor-Geral no processo de recomendações de medidas preventivas temporárias, essa comissão decide a necessidade de elevar o nível de alerta da população. Todos os membros do Comitê devem declarar ausência de qualquer conflito de interesses e comprometer-se com a imparcialidade. Para o autor, o conflito de interesses existe e é óbvio. Para manter uma posição influente e um cargo superior, os profissionais escondem suas verdadeiras opiniões e conclusões. Inclusive, ele menciona o fato de especialistas terem omitido, durante a campanha de vacinação mundial, a possibilidade de danos à saúde, como o aumento de autismo em crianças, pelo uso da vacina.

Em acordo com cientistas e jornalistas investigativos, Pascal acredita que a relação da OMS com a indústria fabricante de remédios carrega certa obscuridade. A parceria público-privada, viabilizada pela própria Organização das Nações Unidas, tornou a independência da entidade uma incerteza, questionando a sua confiabilidade e transparência nos resultados e recomendações. Haveria, de fato, uma aliança espúria entre a organização e os conglomerados da indústria farmacêutica. Pascal menciona evidências de que “quando os resultados não correspondem aqueles que as indústrias e empresas esperam para validar seus produtos, os padrões são alterados e os resultados manipulados”. Segundo o Banco JP Morgan, em 2009, a indústria farmacêutica lucrou entre US $ 7,5 e US $ 10 bilhões. Para Sacré, o alarme e o pânico gerados pela OMS contribuíram para que esses números fossem alcançados. Na atual crise do COVID-19, que vem afetando dados macroeconômicos mundiais, o setor farmacêutico segue como um dos únicos que, a cada dia, aumenta seu nível de rentabilidade.

Por sua vez, em resposta à mais recente crise do COVID-19, as ações equivocadas e tardias da OMS resultaram em parte de sua postura conivente e submissa em relação à China, ilustrada diversas vezes desde o início da epidemia, ainda em janeiro. A clara influência chinesa na OMS não está ligada somente ao fato de a nação ser a segunda maior contribuinte da organização, somente atrás dos EUA, vai bem além de questões orçamentárias.

Um ponto que denota tal interferência se observa na estreita relação entre a China e o atual Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Antes mesmo do cargo na OMS, Tedros trabalhou estreitamente com a China durante seu tempo como ministro da saúde e como ministro das relações exteriores da Etiópia, principalmente na atração de investimentos ao seu país. Além disso, a nação asiática foi a principal apoiadora de sua candidatura para dirigir a OMS, nas eleições de 2017: especialistas afirmam que diplomatas chineses fizeram uma campanha árdua pelo etíope, utilizando a influência financeira de Pequim e o orçamento, para criar apoio para o etíope entre os países em desenvolvimento. Ademais, a filiação de Ghebreyesus à Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope, coalizão de partidos inspiração marxista, demonstra certo alinhamento político-ideológico ao Partido Comunista Chinês. Esses antigos vínculos entre o Diretor-Geral e a China mostraram-se desastrosos e problemáticos desde o início da crise do coronavírus. Vale lembrar que, na gestão anterior, a Diretora-Geral detinha a cidadania chinesa e canadense.

Verifica-se uma série de equívocos ocasionados dessa controversa relação: inicialmente, por exemplo, os especialistas da agência não obtiveram acesso ao país até o Diretor-Geral visitar o presidente chinês Xi Jinping, no fim de janeiro. A OMS atuou apenas repetindo as informações e dados fornecidos pelas autoridades chinesas, de forma acrítica, informações estas que são hoje contestadas no resto do mundo. A lista de informações e orientações erradas da OMS é surpreendente.

Em 14 de janeiro, a OMS divulgou um tweet onde dizia que “investigações preliminares conduzidas pelas autoridades chinesas não encontraram prova clara de transmissão de homem para homem do novo coronavirus identificado em Wuhan, China”. Hoje se sabe que as autoridades chinesas agiam internamente, antes do dia 14 de janeiro, com base na constatação oposta: de que o vírus de fato afetava os seres humanos.

Outro ponto controverso foi com relação aos sucessivos enaltecimentos da OMS à China por sua suposta transparência, ao passo que hoje se critica a China pela manipulação dos dados oficiais, dificuldades impostas ao acesso de cientistas estrangeiros ao país, e o mais importante: a supressão de informações vitais que teriam salvado milhares de vidas. Há diversos estudos, como o da Universidade de Southampton, que apontam para uma redução percentual significativa de mortes caso a China tivesse liberado com antecedência as informações sobre o vírus. Ao invés disso, o governo chinês calou e encarcerou os poucos médicos que se atreveram a alertar o mundo sobre o perigo do vírus.

Outro grande equívoco apontado da OMS foi com relação à defesa da manutenção das viagens internacionais: expressa na fala do Diretor-Geral no início de fevereiro, pontuou-se como sendo desnecessária a interferência nas viagens internacionais e no comércio internacional durante o surto do novo coronavírus. Isto, obviamente, contribuiu para a difusão do vírus e a ocorrência da pandemia. A propósito, a China está sendo responsabilizada pela difusão do vírus, pois embora tenha imposto um bloqueio doméstico em torno da província de Hubei, permitiu viagens internacionais de e para a província. Sabe-se, por exemplo, que os pacientes-zero da Itália foram um casal de chineses da província de Hubei, que chegaram em Milão no dia 23 de janeiro.

Somada a essas problemáticas, houve também a questão de Taiwan. A ilha autônoma, por não ter sua independência reconhecida internacionalmente nem o status de membro na ONU, por consequência, não faz parte da OMS. Na crise do coronavírus, essa exclusão foi ainda mais problemática: além de ter sido excluído de reuniões de emergência e importantes briefings globais de especialistas sobre a pandemia, Taiwan teve as advertências dos seus médicos, não representados na agência, ignoradas, e seus dados foram computados dentro das estatísticas da China. Indo na contramão das orientações feitas pela OMS, Taiwan tomou medidas mais severas logo no início da crise. Tais ações incluíram o corte drástico de voos de entrada da China e a imposição de quarentenas, o que, segundo especialistas, foi fundamental para impedir a disseminação comunitária, além de medidas rigorosas de vigilância.

Nos últimos três meses de crise, ficou nítida a relutância por parte da OMS de tomar medidas mais severas e de declarar uma emergência de saúde pública de interesse internacional: o órgão só o fez, após a visita a Pequim, no fim de janeiro. Posteriormente, a organização manteve sua postura tardia e só declarou o coronavírus uma pandemia global em 11 de março, mesmo que ele já tivesse se espalhado globalmente semanas antes.

Steve Tsang, diretor do Instituto da China na Universidade de Londres, avalia que nessa relação de influência, o Partido Comunista Chinês foi exitoso ao conseguir que a OMS se concentrasse nos lados positivos das respostas chinesas ao vírus e ignorasse suas falhas e os lados negativos. Dessa forma, fica claro que as duras críticas, a respeito da má gestão e corrupção na OMS, persistem na nova pandemia. A resposta tardia da instituição, somada às acusações de omissão do surto, resgatam os questionamentos sobre a integridade e credibilidade da organização.

Recentemente, Donald Trump anunciou, numa entrevista coletiva na Casa Branca, na terça-feira (14/04), a suspensão temporária de suas contribuições como país-membro, alegando a transmissão de informações falsas pela entidade. O presidente americano acusa a entidade de “encobrir” a pandemia de coronavírus e de responder de forma inadequada à propagação da doença. Por ser o maior contribuinte para o orçamento da organização, tal medida coloca em risco os futuros trabalhos da instituição. Ela, porém, não se dirige apenas à OMS: surge como uma forma de contrariar o órgão e de desafiar a China, um dos principais rivais americanos na política internacional, também envolvida na problemática.

Após a resolução da crise do COVID-19, a OMS terá de fazer uma autoavaliação séria e rigorosa, considerando as críticas que estão sendo suscitadas, pois é melhor reformar-se do que perder a credibilidade e seu papel proeminente na preservação da saúde global.

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