Erdogan Quer Armas Nucleares
- dri2014
- Oct 4, 2019
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A Turquia precisa melhorar sua matriz energética urgentemente, visto que importa cerca de 75% de sua energia (dados de 2015). Depender do gás e petróleo, por exemplo, faz com que qualquer aumento no preço desses produtos os prejudique, além de estarem vulneráveis aos cortes de oferta, como aconteceu em 2016 quando a Gazprom (Rússia) cortou o fornecimento em razão do não pagamento. O país tem investido numa matriz energética mais diversificada, incluindo carvão, hidrelétricas, energia nuclear, energia solar e energia eólica. A energia nuclear faz parte, portanto, do plano de crescimento econômico e emancipatório do país. O país iniciou, em 2018, a construção do primeiro reator nuclear, e outros três estão planejados.
O que causou consternação internacional, porém, foi uma declaração do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, que mostrou sua contrariedade com o fato de que a Turquia não podia ter mísseis com ogivas nucleares, já que, na sua opinião, “quase todos os países no mundo desenvolvido possuem mísseis nucleares”. A postura do presidente turco demonstra a insatisfação com a desigualdade de direitos da chamada geometria do poder nuclear. A afirmação do líder turco deve ser considerada com uma grande pitada de crítica. Primeiramente, não é verdade que quase todos os países desenvolvidos mantem mísseis nucleares. Na realidade, uma minoria dos países (4 ou 5) chegaram a este patamar. Ergogan oculta dos seus ouvintes outra verdade: a Turquia não pode ter misseis nucleares porque ela é parte, desde 1980, do Tratado de não-Proliferação Nuclear (TNP), o qual proíbe a aquisição ou desenvolvimento de armas nucleares. O país ratificou também, em 1996, o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares.
A Turquia não precisaria de armas nucleares porque é parte da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, e, nesta condição, já está resguardada pelo guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos. É importante lembrar que a Turquia já tem cerca de 50 armas nucleares estacionadas em seu território, como parte da política de compartilhamento nuclear da aliança militar da OTAN, justificados como medidas de segurança preventiva e até mesmo de contenção de possíveis conflitos na região. Estas armas, contudo, estão em base militar da OTAN e sujeitas ao controle exclusivo dos americanos. Se assim não fosse, a Turquia e os Estados Unidos estariam violando os termos do TNP.
Se a Turquia desenvolver armas nucleares num programa militar secreto, estará se tornando num pária da comunidade internacional, como o Irã e a Coreia do Norte, que se aproveitaram ilegalmente do acesso à tecnologia nuclear do regime de não proliferação para desenvolver armas nucleares. O problema, então seria agravado pela atual situação da Turquia. O país é governado por um ditador que dá continuidade a uma longa história de intervenção e conflitos na região, a exemplo das intervenções no Chipre e na Síria, assim como a derrubada do avião militar russo, as incursões aéreas no espaço aéreo grego, as reivindicações territoriais contra a Grécia e outros países do Mediterrâneo, a contratação de sistemas de armas russos em desrespeito às normas da OTAN, etc. Uma Turquia nuclearmente armada daria um impulso aos demais países da região a buscarem sua própria segurança nas armas nucleares também. A proliferação nuclear na região dificilmente seria contida.
Cumpre à Agência Internacional de Energia Atômica, com a colaboração dos Estados participantes do regime de não-proliferação, impedir que este cenário indesejável venha a se concretizar.