Europa: Elites Federalistas v. Nacionalismo Popular
- dri2014
- Jul 23, 2019
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Desde sua fundação na década de 50, a agora União Europeia vive um constante dilema: manter-se como um processo de ampla cooperação integrado por Estados-nação soberanos ou transformar-se numa entidade supranacional, um super-Estado no modelo federal. Nesta última visão, os Estados membros da União Europeia perderiam o que lhes resta de soberania nacional.
Recentemente, houve uma troca de cadeiras nos principais postos da hierarquia das instituições da União Europeia: a alemã Ursula von der Leyen – ex-ministra da defesa do governo Merkel – foi indicada para a presidência da Comissão Europeia; o belga Charles Michel, para o cargo de Presidente do Conselho Europeu; o espanhol Josep Borrell, como Alto Representante da União para Assuntos Exteriores e Política de Segurança (um tipo de Ministro das Relações Exteriores e de Defesa); e a francesa Christine Lagarde para a presidência do Banco Central Europeu. O que todos estes indicados possuem em comum? São todos federalistas, isto é, apoiam e promovem uma união política completa dos países-membros, com a criação de uma espécie de “Estados Unidos da Europa”. Não bastasse isso, todos os indicados compartilham algo adicional: estão envolvidos em escândalos, casos de ilegalidades e negligência.
A escolha dos líderes das principais instituições da União Europeia marca um descompasso significativo entre as elites europeias e as populações nacionais. A tentativa de se adotar uma Constituição para a Europa foi freada pelos referendos populares na França e Holanda em 2005; a população britânica votou a favor da saída do país da União Europeia em 2016; governos nacionalistas e populistas foram eleitos (e, em alguns casos, reeleitos) em vários países da Europa Central, na Itália e Grécia; e, nas recentes eleições gerais para o Parlamento Europeu, partidos políticos nacionalistas – e contrários ao federalismo europeu – foram os que mais ganharam representação, chegando, em alguns casos (Reino Unido, França, etc) a ganhar as eleições gerais no país. Haveria uma insatisfação das populações nacionais com o estado geral da democracia na União Europeia, que pode ser explicada por diversos fatores, tais como o estado da economia e algumas políticas sociais. Problemas como o desemprego intensificam o aumento da desigualdade social, e as populações nacionais se sentem extremamente insatisfeitas com a política da União Europeia para lidar, por exemplo, com o intenso fluxo imigratório que o continente vem sofrendo. Há também a percepção dos cidadãos de que as políticas comuns da União Europeia, quando adotadas por países europeus tão diferentes, tem efeitos completamente distintos, e equacioná-las é tarefa quase impossível, visto que compartilham sua soberania nacional e têm suas estratégias particulares obstadas. Discursos nacionalistas e conservadores ofereceram soluções simples que parecem eficazes para lidar com esses problemas, fazendo com que governos da direita tenham sido eleitos quase que simultaneamente em vários países. A aspiração por mudanças é um denominador comum entre estes países membros.
A despeito de todos estes sinais, as elites governamentais nomearam burocratas adeptos do federalismo europeu para a chefia das principais instituições da União Europeia!! A Europa está, portanto, dividida entre sentimentos nacionalistas e globalistas, e para satisfazer a população, os partidos terão que construir coalizões, o que parece ainda mais improvável. No entanto, os federalistas indicados aos altos cargos da UE marcham com convicção para consolidar um superestado europeu, algo que não condiz com o movimento nacionalista dominante no eleitorado popular dos Estados nos últimos anos.
A persistência da elite europeia em constantemente ignorar os anseios da população somente fortalece o movimento eurocético, que representa a insatisfação pública salientada pela descrença na instituição supranacional e deseja menor integração econômica e política.
Os principais países defensores dessa agenda federalista são a Alemanha e França. Considerados o núcleo duro da visão federalista, França e Alemanha assinaram em janeiro de 2019 o Tratado de Aachen, que prevê um nível ainda mais aprofundado de integração entre os dois países. Entre as disposições do tratado está a criação de um Conselho de Segurança e Defesa Franco-Alemão, que funcionaria como a raiz do projeto de forças armadas conjuntas da União Europeia. A proposta de um Conselho de Segurança Europeu indica que existe a intenção de convergência nas políticas de defesa, desde regras de exportação de armas até a formação de unidades militares europeias. O problema é que os movimentos nacionalistas e populares nestes dois países só têm crescido, o que colocaria este projeto futuro em risco.