O Abraço Mortal da China
- dri2014
- Feb 6, 2019
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O Paquistão passa por uma crise de financiamento da sua dívida externa (e das suas importações), e para isso teve de recorrer ao FMI e à países que possam prestar esta assistência financeira. A crise financeira colocou o Paquistão refém da China, seu principal credor. Em 2015, os dois países ajustaram um plano bilionário de investimentos, totalmente financiado pela China, chamado de “O Corredor Econômico China-Paquistão” (sigla CPEC em inglês). O financiamento chinês veio, porém, com amarras fortes: todo equipamento, material e a maior parte da mão-de-obra devem vir da China; e as empresas chinesas operando no Paquistão receberam isenção de impostos. Apenas a importação de maquinário chinês teria aumentado o déficit na conta-corrente da balança comercial paquistanesa em quase 50%. E mais: o corredor econômico permite que os produtos chineses cheguem facilmente e com menor custo ao mercado interno paquistanês, aumentando as importações desses produtos (o déficit da balança comercial do Paquistão está na casa dos 35 bilhões de dólares). O resultado é logo sentido: o Paquistão ficou devedor e dependente da China. Estima-se que após o término do projeto do CPEC, o Paquistão ficará com uma dívida de cinquenta a sessenta de bilhões de dólares para com a China. Esta situação interessa muito à China por razões estratégicas também, visto que o Paquistão e a China possuem um inimigo estratégico comum: a Índia.
Quando o Paquistão formalmente bateu na porta do FMI, a organização exigiu transparência, isto é, que o país declare claramente qual a natureza, o tamanho e os termos da dívida que tem com a China. O problema é que a China não permite que o Paquistão revele estas informações. O Secretário de Estado norte-americano deixou claro que os Estados Unidos não desejam que dinheiro do FMI acabe por via indireta a chegar nas mãos do governo chinês.
O governo chinês tem empregado estratégia semelhante com relação à vários países em desenvolvimento: oferece empréstimos para projetos de infra-estrutura, ou financiamentos da dívida, em troca de ativos, acesso comercial privilegiado, influência na política externa e vantagens militares. A situação do Paquistão não se difere muito da de Montenegro, Laos, Quirguistão, Papua Nova Guiné, Samoa, Mongólia, Ilhas Maldivas, Ilhas Fiji, e muitos países africanos receptores da "ajuda chinesa". O Sri Lanka, por exemplo, que deve 1 bilhão de dólares à China, cedeu seu porto a empresas chinesas por um período de 99 anos. Vanuatu, que deve em torno de 200 milhões de dólares, estaria negociando a instalação de uma base militar chinesa. O Paquistão é apenas mais um dos países que estão se sujeitando à esfera de dominação chinesa.
Necessitando de mais financiamento a curto prazo, o Paquistão teria conseguido de imediato 6 bilhões de dólares da Arábia Saudita e um compromisso adicional de investimento saudita futuro da ordem de 10 bilhões de dólares. Obviamente, tal financiamento não será gratuito: no plano da política internacional, os sauditas esperam uma aliança que traga o Paquistão para o lado dos países do Golfo na sua luta estratégica contra o Irã e seus aliados, o que incluiria a participação do Paquistão na intervenção militar no Iêmen.