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ONGs Usadas para Intervir na Política Doméstica de Outros Países

  • dri2014
  • Nov 26, 2018
  • 4 min read

Quem diria que ONGs seriam o mais novo instrumento de política da "nova Guerra Fria"? Na última sexta-feira, 23 de novembro, o grupo hacker “Anonymous” publicou um comunicado em vídeo sobre a ONG britânica “Integrity Initiative”. Afirmando a posse de inúmeros documentos, o grupo expôs que a organização teria sido usada por Londres para interferir e influenciar os assuntos domésticos dos países europeus, como uma espécie de "serviço secreto de informações em grande escala", criado para contrapor-se às ações russas. Além disso, foi revelado a participação da OTAN, do Departamento de Estado americano e do Facebook em tais atividades.

A ONG Integrity Initiative foi criada em 2015 e funcionava através de uma rede localizada na Europa e na América do Norte. Sua missão, de acordo com o site oficial, seria revelar e combater a propaganda e a desinformação. Ainda segundo o próprio site, esse tipo de trabalho “atrairia a atenção extremamente hostil e agressiva de atores de desinformação, como o Kremlin e seus vários representantes”. Além disso, é afirmado que, apesar de ser coordenada a partir do Reino Unido, a rede não seria um órgão do governo, mas trabalharia com departamentos e agências governamentais que compartilhassem de seus objetivos. Entretanto, a revelação do grupo Anonymous e os documentos apresentados postulam a ONG como sendo, na verdade, um projeto financiado e operado por Londres através de contatos escondidos em embaixadas britânicas.

Os hackers, em seu anúncio, afirmam que a inteligência britânica é capaz de realizar operações na França, Alemanha, Itália, Grécia, Holanda, Lituânia, Noruega, Sérvia e Montenegro. O grupo alega ainda que Londres pretende criar projetos semelhantes em todo o mundo a longo prazo, incluindo o Oriente Médio, Norte da África, EUA e Europa como parte do que foi chamado de “colonização silenciosa”. Em trecho publicado pelo site de notícias Sputnik, o Anonymous explicou a ação da ONG da seguinte maneira: "Todo o trabalho é feito sob absoluto sigilo através de contatos ocultos em embaixadas britânicas, o que aumenta a suspeita de que a Grã-Bretanha usa uma desculpa plausível para criar um sistema global de influência e interferência política nos assuntos de outros países."

Como exemplo principal da atuação da Integrity Initiative na interferência de assuntos domésticos dos outros países e na articulação contra a Rússia, os hackers citaram a operação “Moncloa” na Espanha. A operação foi lançada para impedir que Pedro Baños, um coronel considerado pró-Rússia, fosse nomeado como o novo chefe do escritório de inteligência da Espanha. O grupo espanhol da Integrity Initiative agiu, segundo os documentos publicados, para impedir que uma voz pró-Rússia formulasse a política de segurança nacional espanhola. Dessa forma, a ONG iniciou uma campanha no Twitter em junho de 2018 para incitar a turbulência da mídia e pressionar os partidos políticos espanhóis a pedirem ao primeiro-ministro, Pedro Sanchez, o cancelamento da nomeação. Na época, os próprios políticos espanhóis usaram do Twitter para manifestar sua indignação com a nomeação de Baños.

O governo britânico respondeu ao site Sputnik, através do Ministério das Relações Exteriores, que as informações sobre o projeto Integrity Initiative já estavam disponíveis para o público e que Londres está feliz pelo programa estar recebendo "maior exposição".

Todavia, além das ações da ONG britânica e da explicação do seu funcionamento, foi revelado também pelo grupo Anonymous o financiamento que o projeto recebia, o que resultou em posições mais duras da Rússia em relação ao caso. O formulário divulgado apontava um co-financiamento do projeto que teria sido solicitado para outros doadores, além do governo britânico. Foi revelado, então, que a ONG recebeu fundos do Departamento de Estado dos EUA, da OTAN e do Facebook. Só o Departamento de Estado americano forneceu à Iniciativa 250.000 libras para atividades de pesquisa e disseminação, enquanto o Facebook deu ao programa 100.000 libras para pesquisa e educação, mostrou o documento.

O Kremlin ainda não se posicionou oficialmente, mas segundo fontes, eles permanecem estudando os documentos vazados em detalhes para tomar as medidas cabíveis. Todavia, alguns parlamentares russos já se pronunciaram sobre o caso. De acordo com eles, uma alegada operação secreta da inteligência britânica para atacar a Rússia e influenciar aliados justificaria a investigação de uma agência nacional para coibir a interferência estrangeira. Em entrevista ao site Sputnik, Andrei Lugovoi, membro do Comitê de Segurança, disse que Londres tem trabalhado para desacreditar a Rússia, "especialmente no campo da informação". Já o membro do Comitê de Defesa, Andrei Krasov, sugeriu que o que foi revelado nos documentos demonstra a hipocrisia britânica e do Ocidente no que diz respeito à desinformação. Além disso, acrescentou que os documentos também comprovariam uma campanha informativa contra seu país e alertou que pode ser estendida a outros Estados.

Analistas políticos do Reino Unido e dos EUA acreditam que as revelações sobre a ONG são extremamente importantes, pois ajudam a esclarecer até que ponto Londres está travando sua campanha de “guerra híbrida” contra a Rússia. Para eles, os materiais publicados dizem muito sobre diversos processos no Sistema Internacional, já que o Anonymous descobriu a existência de instruções reais sobre como agir contra a Rússia. Os especialistas também recordam que a publicação do grupo Anonymous demonstra que o Reino Unido está disposto a usar qualquer meio necessário para alcançar seus objetivos, como teria ocorrido no caso Skripal.

É válido ressaltar que essa não é a primeira vez que hackers desvendam ações do Ocidente contra a Rússia. Em matéria publicada em fevereiro de 2018, o grupo Fancy Bears trouxe à tona um relatório em seu site que acusava organizações esportivas nacionais canadenses de conspirar contra atletas russos a pedido do governo do país.

O uso de ONGs para a intervenção nos assuntos domésticos de outros países é uma prática consolidada de vários países, em flagrante desrespeito ao princípio da não-intervenção. Basta lembrar que a então Subsecretária de Estado norte-americano Victoria Nuland reconheceu que os EUA investiram mais de 5 bilhões de dólares na Ucrânia desde 2001 para apoiar “instituições democráticas” no país, até que ocorreu o levante de Maiden em 2004 e a deposição do então Presidente eleito. Por meio do Departamento de Estado, os EUA também financiou uma ONG que trabalhou em Israel contra o partido que estava no poder e a reeleição do então Primeiro-Ministro.

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