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Finalmente a paz na península coreana?

  • dri2014
  • May 10, 2018
  • 5 min read

Na última sexta-feira (27) de abril deste ano, o mundo assistiu esperançoso o encontro entre Kim Jong-un, líder da Coréia do Norte e Moon Jae-in, presidente sul-coreano. O encontro ocorreu na Coréia do Sul, na cidade de Panmunjom, localizada próxima à zona desmilitarizada que separa os dois países. O líder norte-coreano prometeu que a reunião seria o primeiro passo para o desenvolvimento de uma nova história com seu vizinho do Sul. Esse fato apresenta significativa importância para história da península coreana, já que Kim se tornou o primeiro líder norte coreano a entrar na Coréia do Sul desde o final da guerra das coreias e, da mesma forma, a cúpula marca o primeiro encontro entre as coreias em mais de uma década, o que aparenta ser um passo a mais em direção à possível paz na região.

Contudo, para compreender a dimensão do ato entre os dois presidentes para o curso da história da região, é necessário verificar os seus antecedentes. Em 1953, um armistício gerou um cessar-fogo na então Guerra da Coréia que já durava três anos. Entretanto, o conflito nunca terminou oficialmente, pois as partes não concordaram com um tratado de paz formal. Os reflexos desse conflito inacabado ainda são sentidos nessas primeiras décadas do século XXI, com as ameaças norte-coreanas de conflito com potências que apoiam a Coréia do Sul e com a vontade do líder Kim Jong-un de tornar seu país uma potência nuclear.

Nos últimos anos, com a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos – com uma personalidade tão explosiva quanto a de Kim – as tensões internacionais em direção a um conflito envolvendo estes países chegaram a níveis alarmantes. O ano de 2017, como o exemplo mais concreto, marcou essas tensões com os testes nucleares e balísticos ameaçadores realizados pelo norte-coreano.

Porém, desde janeiro deste ano, se pode perceber uma mudança na postura do líder da Coreia do Norte, o qual afirmou estar aberto ao diálogo com o Sul, dando início ao processo de aproximação. No mês seguinte os dois países marcharam usando uma só bandeira na abertura das olimpíadas de inverno realizada na cidade sul-coreana de PyeongChang. Essa nova abordagem diplomática de Kim resultou em um marco no processo de aproximação, que foi uma reunião entre altas autoridades dos dois países em março juntamente com o anúncio de que Kim logo se encontraria com Donald Trump. Em abril, o norte-coreano anunciou o fim de todos os testes nucleares de mísseis de longo alcance, afirmando que o país dominou a montagem de ogivas nucleares em mísseis e não precisava mais realizar tais testes. Kim afirmou que, por isso, a Coreia do Norte adota agora uma “nova linha estratégica” com o foco no desenvolvimento econômico.

Dessa forma, o encontro do dia 27 é, até então, a etapa mais significativa dessa nova postura entre as coreias. Dentre os assuntos discutidos na cúpula, aquele de mais interesse internacional, sem dúvidas, foi a questão nuclear da península. As conversas se concentraram em um acordo sobre o programa de armas nucleares da Coreia do Norte que avançou significativamente nos últimos dez anos, desde a última reunião entre os dois países com a impressionante declaração de que a desnuclearização da península é um “objetivo comum” dos dois países. Os líderes concordaram em gradativamente reduzir as armas para construir um clima de confiança e reduzir as tensões militares na região, planejando, inclusive um encontro entre os generais dos dois países em maio para buscar solucionar questões militares pendentes.

Além das questões nucleares também foi discutido um possível fim formal da Guerra da Coreia (1950-53). Kim Jong-Un teria condicionado a conclusão do tratado de paz entre os países em troca do desmantelamento do seu programa nuclear. Após a declaração conjunta acordada depois das conversas, as duas nações asiáticas concordaram em manter contato com os EUA e a China para substituir o atual regime de cessar-fogo por um tratado de paz. Os dois países também concordaram em parar todos os atos hostis e transformar a zona desmilitarizada em zona de paz, retirando suas respectivas tropas.

Outra questão abordada foi o fortalecimento da cooperação econômica entre as nações. Nesse quesito, o presidente sul-coreano ofereceu, entre outras coisas, ligar as ferrovias dos dois países e prometeu visitar o Norte no outono. Também foi acordado a criação de uma zona marítima de paz no limite norte entre os Estados para evitar os correntes confrontos sangrentos e garantir a segurança dos pescadores da região. Por fim, também foi discutido a criação de um escritório de ligação na cidade fronteiriça norte-coreana de Kaesong para a reunião de famílias separadas pela guerra.

O que acarretou essa mudança na posição da Coreia do Norte? Há várias razões possíveis. Acostumada à arte do “brinkmanship”, a Coreia do Norte encontrou na administração Trump um oponente à altura. Além de corresponder na retórica, Trump enviou três forças-tarefas navais, encabeçadas por porta-aviões, para as imediações da Península Coreana, despachou bombardeios estratégicos para a região, além de realizar um enorme exercício militar com a Coreia do Sul. Houve também um aumento das sanções contra o regime norte-coreano. Por fim, parte da montanha onde se localizara o site dos testes nucleares desmoronou, matando dezenas de cientistas norte-coreanos, equipamentos e material nucleares. Uma visita surpresa do então Diretor da CIA, Mike Pompeo, no início de 2018, sedimentou as condições de distensão propostas pelos Estados Unidos. Toda a pressão norte-americana foi apoiada pela China, cujo líder se encontrou com Kim duas vezes.

A cúpula na Coreia do Sul está sendo vista como o primeiro passo para um encontro ainda mais significativo entre Kim e Trump. Ambos viviam sobre ameaças recíprocas, mas após a mudança na postura no líder norte-coreano, o presidente Trump assinalou que apoiava o novo comportamento declarando que os americanos devem estar muito contentes com o que está havendo na península coreana, embora mostre um otimismo reticente com a mudança de posição.

Se a Coreia do Norte realmente se desnuclearizar, será necessário o seu retorno ao regime de não-proliferação nuclear, tornando-se novamente parte do Tratado de não-Proliferação e se submetendo aos poderes de monitoramento e inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica. Só o tempo dirá se a conversão foi verdadeira. De toda forma, Pompeo, agora como Secretário de Estado, fez uma segunda visita a Coreia do Norte para finalizar os detalhes de um possível acordo, e tudo indica que poderá haver um encontro entre Kim e Trump (e outros líderes) num futuro próximo.

Entretanto, apesar de todo clima esperançoso que o mundo vive, há diferentes pontos de vista que não aparentam estar tão confiantes e contentes com os avanços nas relações dos dois países. Alguns céticos acreditam que Kim está tentando melhorar os laços com a Coréia do Sul escapar das sanções americanas que estão cada vez mais prejudicando a economia do país, ao mesmo tempo que tenta estabelecer o status de potência nuclear. Os movimentos de Kim Jong-un estão inquietando também oficiais do Japão. A oferta súbita generosa, de alguém que há quatro meses alertou os Estados Unidos que estava pronto para lançar mísseis de um botão nuclear em sua mesa, está aguçando uma questão que atormenta os observadores: O que Kim quer? O Japão é mais um ator profundamente cético em relação aos motivos de Kim e teme que as preocupações de segurança japonesas não sejam levadas em conta nos acordos entre a Coreia do Norte e a Coréia do Sul, ou a Coreia do Norte e os Estados Unidos. Os oficiais japoneses afirmam que o anúncio da suspensão dos testes nucleares não é suficiente porque não indicou claramente se incluía os mísseis de curto e médio alcance capazes de atingir o território japonês.

A boa notícia é que os lideres do Japão, China e Coreia do Sul encontraram-se e decidiram trabalhar conjuntamente para a desnuclearização da Coreia do Norte.

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