A Internacionalização da Guerra Civil na Síria
- dri2014
- Feb 23, 2015
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Já se noticiou que milhares de estrangeiros voluntários (mais de 16 mil combatentes estrangeiros, provenientes de mais de 80 nações) estão participando no conflito sírio. Há também diferentes etnias, algumas com ramificações transnacionais (como os Curdos). Com a divulgada participação direta da força aérea norte-americana no conflito da Síria, a internacionalização assume novos e mais amplos contornos. Isto porque forças do grupo Hezbollah (Líbano) já atuam na Síria, assim como forças dos Guardas Revolucionários do Irã (o nome dado ao exército iraniano).
A Síria de hoje lembra a Espanha de 1936-1939, que experimentou uma guerra civil internacionalizada com a intervenção da Itália, Alemanha, União Soviética e estrangeiros voluntários que formaram uma brigada internacional. Na Espanha, o conflito armado tinha justificativa ideológica e política, ao passo que na Síria há um antagonismo religioso e étnico alimentado por razões políticas, estratégicas e comerciais.
A internacionalização da guerra civil na Síria se expandiu ainda mais. Nessa semana, mais precisamente no dia 22 de fevereiro de 2015, a Turquia invadiu o território sírio com 600 soldados e 100 tanques e veículos militares sob o pretexto de transferir o túmulo de Suleyman Shah, o avô de Osman I, fundador do Império Otomano. O túmulo, segundo a Turquia, estaria ameaçado por forças do Estado Islâmico. Um tratado entre a Turquia e a Síria de 1921 permite que o túmulo, situado em território sírio, seja mantido e guardado por soldados turcos. Ocorre que a incursão de forças turcas no território sírio se deu sem o consentimento da Síria, o que tecnicamente constitui um ato de violação da sua soberania e um ato de agressão. O governo Sírio protestou publicamente nesses termos. O túmulo foi levado para uma outra localidade mais próxima da fronteira turca, mas ainda permanece situado na Síria.
A Síria tem razão em se preocupar com essa intervenção turca. No ano passado, uma reunião sigilosa ocorrida na Turquia entre o chefe do serviço de inteligência, o ministro das relações exteriores, e oficiais militares de alta patente foi gravada e vazada na internet (YouTube). Nela, se discutiam possíveis incidentes falsos a serem criados e que pudessem justificar uma intervenção militar da Turquia contra o governo sírio do presidente Assad. Uma das possibilidades examinadas foi, por coincidência, a orquestração de um ataque contra o túmulo de Suleyman Shah! Em resposta à divulgação da gravação, o governo Turco bloqueou o acesso ao YouTube e ao Twitter.
O perigo de ações provocadoras por parte da Turquia é que o país é membro da OTAN, e qualquer resposta armada do governo Sírio pode provocar uma intervenção armada da OTAN em favor do seu membro. Nesse caso, o conflito se tornaria verdadeiramente internacional.
A Turquia tem interesses específicos na Síria, ditados pelo apoio à Irmandade Muçulmana e o objetivo de prevenir uma autodeterminação curda na Síria que afete as regiões Curdas da Turquia e do Iraque. Para além disso, especula-se que a Turquia teria ambições de ressuscitar o que se costumava chamar de "o homem doente da Europa", isto é, o antigo Império Otomano. A Irmanda Muçulmana apóia a restauração do antigo Califado, e nesse sentido, os dois compartilham o mesmo propósito.