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A Turquia de Erdogan e o Movimento Secessionista Curdo


O conflito entre a Turquia e o movimento secessionista curdo, em grande parte representado pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), é um dos mais prolongados e intrincados do Oriente Médio. Recentemente, Abdullah Öcalan, líder histórico do PKK e atualmente preso na Turquia, fez uma declaração surpreendente: pediu aos seus seguidores que abandonassem a luta armada em favor de meios pacíficos de resistência. Essa mudança de postura pode ser vista como um marco, uma tentativa de reorientação estratégica, mas também levanta uma série de questões sobre o futuro do movimento curdo e suas relações com o governo de Recep Tayyip Erdogan.

            O povo curdo, que habita territórios da Turquia, Síria, Iraque e Irã, tem uma longa história de reivindicações por autodeterminação. Após a Primeira Guerra Mundial, a promessa de um Estado curdo feita pelo Tratado de Sèvres (1920) foi descartada pelo Tratado de Lausana (1923), deixando os curdos sem um país próprio. No contexto turco, o PKK surgiu em 1978 como um grupo político que defendia a criação de um Estado curdo independente. A partir de 1984, o PKK iniciou uma luta armada contra o governo turco, caracterizada por ataques contra a infraestrutura, alvos militares e civis. Entre os ataques mais notórios, destacam-se o atentado em Diyarbakir em 1996, que matou 8 pessoas, e também o ataque à sede da polícia em Cizre em 2016, além de emboscadas a comboios militares em estradas do sudeste da Turquia ao longo das décadas.

            O PKK tem sido considerado um grupo terrorista pela Turquia, os Estados Unidos e a União Europeia. Ao longo das décadas, o conflito resultou em dezenas de milhares de mortes e deslocamentos forçados. Em diferentes momentos, houve tentativas de cessar-fogo e negociações de paz, mas essas iniciativas foram interrompidas por reações violentas de ambos os lados. A repressão do governo turco incluiu ofensivas militares, prisões em massa e restrições severas aos direitos culturais curdos. Entre as operações mais significativas, destacam-se a Operação Garra-Relâmpago em 2021 e os bombardeios contra posições curdas na Síria e no Iraque. Agora, com a recente declaração de Abdullah Öcalan instando o PKK a abandonar a luta armada, o conflito pode entrar em uma nova fase.

            Atualmente, a situação dos curdos na região é complexa. Na Turquia, a repressão contra grupos curdos continua forte, especialmente após a tentativa de golpe de 2016, que resultou em um endurecimento do governo de Erdogan. Nos últimos anos, a margem de manobra política dos curdos na Turquia tem diminuído, com detenções em massa de políticos curdos e a repressão a partidos pró-curdos, como o Partido Democrático dos Povos (HDP). Na Síria, grupos curdos como as Unidades de Proteção Popular (YPG) tiveram um papel crucial na luta contra o Estado Islâmico, mas enfrentam pressão constante da Turquia, que os considera uma extensão do PKK. A recente ofensiva militar turca na região norte da Síria reforçou essa ameaça, limitando o controle curdo sobre territórios anteriormente administrados pela Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (AANES). No Iraque, a Região Autônoma do Curdistão goza de relativa independência e mantém relações pragmáticas com Ancara, mas sua influência sobre os curdos da Turquia e da Síria é limitada.

            Essa mudança de postura de Öcalan pode ser explicada por vários fatores. Em primeiro lugar, há a realidade política e militar de um movimento que enfrenta dificuldades crescentes. O fortalecimento do governo de Erdogan, com a repressão aos movimentos curdos e a crescente hegemonia política na Turquia, tornou as chances de vitória militar do PKK mais remotas. Além disso, a falta de apoio internacional à luta armada curda (especialmente após o declínio do Estado Islâmico (ISIS)) coloca o PKK em uma posição de crescente isolamento. Sem aliados estratégicos, a opção pela via pacífica parece ser uma tentativa de preservar o movimento curdo de um colapso iminente. Outro fator importante é o desgaste vivido pelas comunidades curdas, especialmente aquelas que habitam as regiões do sudeste da Turquia. As gerações mais jovens, que cresceram em meio ao conflito, podem estar mais inclinadas a buscar soluções pacíficas, desejando estabilidade e condições de vida melhores, algo que a luta armada não conseguiu proporcionar. Nesse cenário, a figura de Öcalan, com seu apelo pela paz, pode ser vista como uma tentativa de alcançar um compromisso com as novas gerações curdas, ao mesmo tempo que evita uma radicalização ainda maior dentro do movimento.

            Entretanto, essa virada de estratégia não será simples. Dentro do próprio PKK existem facções mais radicais que podem rejeitar a ideia de abandonar a luta armada. Esses grupos, que possuem vínculos com as Unidades de Proteção Popular (YPG) na Síria, continuam a se opor à Turquia com o uso da força. Para muitos desses combatentes, a rendição às demandas de Öcalan pode ser vista como uma fraqueza ou uma traição aos princípios fundadores do movimento curdo.

                Os grupos curdos buscam alcançar uma maior autonomia, com figuras políticas como Sırrı Süreyya Önder propondo um modelo de convivência entre turcos e curdos, vislumbrando uma "república turco-curda compartilhada". No entanto, esse tipo de proposta entra em desacordo com os interesses do presidente Erdogan e de outros líderes nacionalistas turcos, que veem qualquer concessão em relação à autonomia curda como uma ameaça à integridade do Estado turco. O posicionamento de Erdogan no conflito também reflete uma estratégia voltada para consolidar sua liderança interna, utilizando o enfrentamento com o PKK como um meio de fortalecer sua popularidade e garantir mudanças políticas e constitucionais que possibilitem sua permanência no poder por mais tempo, possivelmente além de 2028.

Esse cenário reflete não apenas a postura implacável do governo turco, mas também o difícil equilíbrio que Erdogan tenta manter entre a pressão externa e a necessidade de consolidar seu poder internamente. Com a repressão contínua e a vigilância sobre o movimento curdo, a realidade é que qualquer avanço no diálogo e na negociação se esbarra na recusa do governo em ceder às demandas curdas, particularmente no que se refere à autonomia. Essa dinâmica não é apenas política, mas também profundamente enraizada na ideologia de um Estado que busca preservar sua unidade a qualquer custo, mesmo que isso signifique prolongar um conflito que já dura mais de quatro décadas.

A situação na Turquia, aliás, continua bastante difícil. A repressão aos curdos, especialmente após a tentativa de golpe de 2016, tem sido implacável. A margem de ação política para os curdos foi drasticamente reduzida, com detenção em massa de políticos curdos e um cerceamento ainda maior da liberdade de expressão. Isso dificulta qualquer processo de paz genuíno, pois o governo de Erdogan continua a ver qualquer concessão aos curdos como um risco à unidade do Estado turco.

Na Síria, a situação é igualmente complicada. As YPG, que desempenharam um papel decisivo na luta contra o ISIS, continuam sendo alvo de ataques militares turcos, que as consideram uma extensão do PKK. Mesmo com a autonomia alcançada pelas regiões curdas no norte da Síria, a presença militar turca impede uma maior consolidação do poder curdo na região. A recente ofensiva turca na Síria reflete o desejo de Erdogan de desmantelar qualquer forma de autonomia curda nas fronteiras turcas. Isso coloca os curdos sírios em uma posição extremamente vulnerável, uma vez que dependem de uma ajuda externa que é cada vez mais incerta.

Por outro lado, no Iraque, a situação dos curdos é relativamente mais estável. A Região Autônoma do Curdistão desfruta de uma certa independência e mantém boas relações com a Turquia, especialmente no âmbito econômico, devido às trocas comerciais de petróleo. No entanto, o governo regional curdo no Iraque não tem a capacidade de influenciar de forma significativa as dinâmicas políticas dos curdos na Turquia ou na Síria. Sua influência permanece limitada pela complexidade das relações regionais e pela pressão constante do governo central em Bagdá.

O futuro do movimento curdo, portanto, depende de uma série de fatores externos e internos. A mudança estratégica de Öcalan é um passo significativo, mas sem garantias externas e sem uma mudança de postura do governo turco, é difícil imaginar um desfecho pacífico para o conflito. A evolução das relações entre os curdos da Turquia, Síria e Iraque, bem como as respostas de Erdogan e da comunidade internacional, serão determinantes para o futuro da questão curda. Se a mudança de Öcalan será suficiente para pacificar o movimento curdo e alterar o curso do conflito, só o tempo dirá, mas o caminho para a paz parece, por ora, ainda muito distante.

 

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