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A Europa em Busca da Autonomia Estratégica (Parte II)


Após a eleição dos Estados Unidos, que culminou na vitória do Presidente Donald Trump, diversos países europeus têm intensificado esforços para alcançar maior autonomia estratégico-militar em relação aos Estados Unidos, especialmente em face de incertezas políticas e militares associadas ao novo governo estadunidense. O Reino Unido, a França, a Alemanha e os países nórdicos estão liderando discussões informais, mas estruturadas, com o objetivo de elaborar um plano de longo prazo para transferir uma parte significativa do orçamento financeiro e militar da OTAN para as capitais europeias. A proposta inclui compromissos firmes para aumentar os gastos com defesa na Europa e o desenvolvimento de capacidades militares próprias, baseada na percepção de que os EUA pretendem reduzir sua presença no continente e focar mais no cenário asiático.

Essa movimentação ocorre no contexto de uma Europa que, mesmo com a reafirmação do compromisso dos Estados Unidos com a OTAN e sua cláusula de defesa mútua do Artigo 5, sente a necessidade de reforçar sua independência estratégica. Embora os diplomatas americanos tenham tranquilizado os aliados europeus quanto ao compromisso contínuo dos EUA com a aliança, as potências militares europeias têm se empenhado em aumentar seus gastos com defesa. A União Europeia também tem incentivado seus membros a acelerar os investimentos militares, buscando uma maior autonomia em termos de capacidade de defesa.

Um dos aspectos centrais dessa agenda é o projeto de um plano de 5 a 10 anos para substituir gradualmente a dependência dos Estados Unidos na OTAN. Este plano incluiria uma reconfiguração do flanco oriental da aliança, potencialmente influenciado por países como a Polônia, que está cada vez mais focada em uma postura anti russa. A postura da França será determinada em grande parte pelo resultado das próximas eleições presidenciais do país. A questão nuclear também surge de forma relevante, com o presidente francês Emmanuel Macron discutindo a possibilidade de estender o ‘guarda-chuva’ nuclear francês para o restante da Europa, o que poderia aumentar as tensões com Moscou, e ao mesmo tempo, diminuir de forma significativa a dependência dos Estados Unidos como provedor majoritário de segurança ao continente.

A proposta de Macron inclui o aumento do orçamento de defesa da França e se alinha com uma iniciativa de discutir a expansão do dissuasor nuclear francês para outros países europeus. O envolvimento de países como a Polônia, que expressa interesse em armas nucleares, pode ser um passo importante nessa direção, refletindo a mudança nas percepções de segurança na Europa.

Este movimento não está isento de controvérsias, especialmente com as reações adversas de Moscou, que vê as ações de Macron como uma provocação. O presidente russo, Vladimir Putin, comparou as ambições de Macron às deNapoleão, e o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, foi ainda mais incisivo ao descrever as propostas de Macron como uma ameaça direta. A possível ampliação do dissuasor nuclear francês poderia, portanto, aumentar ainda mais as tensões entre a Europa e a Rússia.

Além disso, questões como a confiabilidade dos EUA como aliado também estão sendo discutidas, com pesquisas de opinião na Polônia mostrando uma crescente desconfiança em relação à liderança de Trump. A construção de uma arquitetura de segurança europeia mais autônoma dependerá, portanto, de como as potências europeias, incluindo a França e a Polônia, alinham suas políticas de defesa, especialmente diante de um cenário global em constante mudança.

Em sua conjuntura doméstica, a Polônia depende do resultado da eleição presidencial de maio para se posicionar dentro dessa nova configuração geopolítica planejada por alguns países europeus. Desse modo, tem-se que a coalizão liberal-globalista governante possibilita a inserção militar de um “Exército Europeu” na Polônia, além de uma influência francesa maior, ao passo que a oposição conservadora e populista apresenta-se mais alinhada aos Estados Unidos. Considera-se que a atuação da França no Estado polonês corresponde a uma tática para equilibrar a presença dos Estados Unidos na região.

Ainda assim, alguns países europeus posicionam-se contra os esforços para a estruturação de uma autonomia estratégico-militar do continente. Nesse sentido, a Romênia e os países bálticos demonstram interesse em permanecer sob o guarda-chuva de segurança dos Estados Unidos. Nesse sentido, Cristian Diaconescu, conselheiro do presidente interino para defesa e segurança nacional da Romênia, afirmou que não haveria necessidade da expansão nuclear francesa no território. Em paralelo a isso, os países bálticos dispõem de uma elite pró-EUA, que apenas mudaria sua direção para a União Europeia caso fossem forçados a tal, em virtude da restrição ou remoção das tropas estadunidenses em seus territórios como parte de um acordo com a Rússia.

Em resposta às ameaças contínuas de Trump à Groenlândia, a Dinamarca compreende a coalizão dos dispostos como um mecanismo essencial para resguardar seus interesses nacionais e delimitações territoriais. Ao mesmo tempo, a busca de Alemanha, França e Polônia por uma estrutura de segurança europeia mais independente demonstra seus esforços para consolidar sua liderança no continente, especialmente em um cenário redefinido pelos desdobramentos da Guerra da Ucrânia.

 

 

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