A União Europeia e a Busca por Autonomia Estratégica

A guerra na Ucrânia tem sido um divisor de águas para a segurança europeia, impulsionando debates sobre a necessidade de maior autonomia estratégica do continente. O prolongamento do conflito e as incertezas quanto ao compromisso dos Estados Unidos com a defesa da Europa tornaram-se fatores centrais para essa mudança de paradigma. O recente encontro entre Volodymyr Zelensky e Donald Trump na Casa Branca evidenciou essas tensões. O fracasso das negociações para uma solução pacífica e a possibilidade de um afastamento dos Estados Unidos do conflito geraram uma forte reação estratégica entre os membros da União Europeia. Em resposta, as lideranças europeias reforçaram publicamente seu apoio a Kiev e organizaram um novo bloco de influência e ação: a chamada “coalizão dos dispostos” (expressão primeiramente usada pelo presidente norte-americano George Bush para descrever a coalizão de países que invadiu o Iraque em 2003).
Inspirada pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer, o Presidente francês, Macron, e a liderança institucional da União Europeia, a coalizão busca demonstrar que a Europa pode desempenhar um papel central na definição do futuro da Ucrânia, independentemente da posição dos EUA. O grupo, que inclui também Alemanha, Dinamarca, Noruega e Itália, defende que “qualquer esforço de paz duradouro deve garantir a soberania da Ucrânia e sua participação ativa nas negociações”. Além disso, os líderes europeus prometeram manter o fluxo de ajuda militar para Kiev e eventualmente empregar uma força de manutenção da paz para viabilizar um cessar-fogo.
No entanto, os objetivos da formação dessa coalizão vão além da guerra na Ucrânia. Ela reflete um movimento mais amplo dentro da União Europeia em direção à autonomia estratégica e à redefinição da segurança continental. A guerra expôs fragilidades na defesa europeia, como a escassez de estoques de munição e a necessidade urgente de modernizar as forças armadas nacionais. Esses desafios impulsionaram debates sobre a criação de um Exército Europeu e o fortalecimento de uma base industrial-militar própria, reduzindo a dependência da OTAN e, principalmente, dos EUA. Embora o conceito tenha sido discutido desde a década de 1950, foi constantemente adiado devido a questões de soberania e à preeminência da OTAN como garantidora da segurança europeia. No entanto, a guerra e o debate sobre a formação da "coalizão dos dispostos" reacenderam a discussão sobre um Exército Europeu e um complexo industrial-militar autônomo.
A União Europeia dispõe de grupos de batalha multinacionais desde 2007, contudo, a ausência de consenso político tem impedido sua efetiva utilização e expansão. Conforme afirmou um diplomata europeu, “nenhum líder deseja enviar tropas para arriscar suas vidas sob a bandeira da UE”. A retirada desordenada das forças dos Estados Unidos do Afeganistão em 2021 reforçou a percepção de que a Europa não pode depender exclusivamente de Washington para garantir sua segurança. Diante desse cenário, o presidente francês, Emmanuel Macron, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, têm defendido a criação de uma força de resposta rápida, composta por 5.000 soldados, com o propósito de intervir de maneira autônoma em crises futuras.
O maior obstáculo, no entanto, reside no financiamento dessa iniciativa. Atualmente, os países da UE gastam, em média, 1,8% do PIB em defesa, mas, segundo o The Economist, esse percentual precisaria aumentar para pelo menos 4% a 5% para que a Europa pudesse se defender sem os Estados Unidos. Entre as propostas em análise está a emissão de títulos de dívida conjunta para financiar a compra de armamentos, medida que enfrenta resistência entre os Estados-membros mais ricos. Além disso, discute-se o aumento do financiamento coletivo para pesquisa militar e a ampliação do papel do Banco Europeu de Investimento no setor de defesa.
Outro aspecto crucial para a segurança europeia é a mobilidade militar, ou seja, a capacidade de deslocar rapidamente tropas e equipamentos através do território da UE. Bruxelas já trabalha para remover barreiras logísticas, facilitando a movimentação de forças militares dentro do bloco. Essa infraestrutura é considerada essencial não apenas para a defesa coletiva, mas também como um fator de dissuasão estratégica.
Mas pode a Ucrânia prosseguir no conflito, e pode a União Europeia assegurar sua própria segurança, sem os EUA? Ao se analisar o nível de dependência que a Europa tem dos Estados Unidos, percebe-se que a quantidade de dinheiro que atravessa o Atlântico para manter a proteção dos “aliados” é impressionante. Considerando que os EUA representam cerca de 70% de todos os gastos anuais combinados com defesa dos países da OTAN, fica claro que nenhuma outra nação chega nem perto. Em 2023-2024, esse gasto totalizou mais de US$860 bilhões. O membro mais próximo da OTAN em termos de orçamento para a aliança é a Alemanha, com US$ 68 bilhões, valor que representa menos que 8% da contribuição americana, já que o financiamento da OTAN está incluído no pacote total de gastos com defesa dos Estados Unidos.
Resumidamente, a Ucrânia não tem direito a dólares de impostos dos EUA ou ajuda militar americana. A Europa, por outro lado, insiste que a guerra deve continuar mesmo sem a ajuda dos EUA, mas sua capacidade de financiá-la e lutá-la é limitada. A insistência nessa situação poderia, até mesmo, desencadear uma Terceira Guerra Mundial no processo, que estaria fadada à destruição de todas as partes do conflito.
Por enquanto, as elites europeias estão tentando reunir o apoio público em torno da extensão do conflito e da formação de um exército centralizado da UE. Contudo, isso levará anos e provavelmente nunca chegará perto do nível de financiamento que os EUA podem fornecer. Sem mencionar que os europeus nativos mais jovens não têm interesse em se juntar para lutar.
Assim, sem os EUA, prosseguir com o conflito pode ser uma ideia fracassada para a Ucrânia, e para a União Europeia, não há garantia efetiva de sua segurança. De toda forma, a elite política europeia pode ter consciência disso, mas ainda assim desejariam prosseguir com a proposta porque, quando menos, atingiriam um outro objetivo maior: o de consolidar ainda mais poder nas mãos das instituições da União Europeia, em detrimento da soberania dos Estados membros.
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