O Atual Contexto Geopolítico da Síria

A constante instabilidade política da Síria já não é um fator novo ao cenário internacional, todavia a crescente influência das ambições regionais da Turquia e de Israel, intensificadas com o colapso do regime de Bashar Al-Assad e a ascensão do grupo Hayat Tahrir-al Shams (HTS), representam uma nova configuração de forças no território sírio.
O contexto político da Síria, desde sua independência em 1946, caracterizou-se por disputas internas pelo poder local e pela interferência de outros atores estatais, como a Rússia. Em 1971, através de um golpe militar sustentado por laços estreitos com a União Soviética, Hafez Al Assad, um oficial da aeronáutica, assumiu o controle político do país, governando até sua morte em junho de 2000. Seu sucessor, Bashar Al Assad, deu continuidade ao governo até dezembro de 2024, quando uma série de ofensivas executadas por grupos rebeldes culminaram na derrocada do regime da família Assad, cujo controle político sobre a Síria já perdurava por mais de meio século.
Além do papel das forças de segurança do governo, a complexidade da sociedade síria, oriunda de uma composição heterogênea entre sunitas, cristãos, drusos e xiitas, abrangendo também minorias como curdos e armênios, designou às instituições primárias - religião e família - um papel fundamental na manutenção da ordem no Estado. A conformação de poder e a estabilidade no território sírio, porém, é afetada também pelas disputas entre as unidades políticas no âmbito regional e pelas relações com as grandes potências no nível sistêmico.
Quanto às forças regionais, tem-se que o antagonismo e a polarização entre Estados da região, diante de ambições expansionistas, resultam na promoção de guerras civis, tal como experienciado nas repercussões da Primavera Árabe (2010-2023) na Síria, bem como a recente tomada de poder, que foi favorecida pelo auxílio da Turquia. Já no plano extrarregional, a relação entre a Síria e a extinta União Soviética, estreitada com o regime da família Assad, favoreceu trocas comerciais, militares e políticas, na medida que viabilizou a importação de material bélico soviético e, também, concedeu acesso do mediterrâneo oriental à União Soviética. Em contrapartida, o aumento da presença dos Estados Unidos na região se sucedeu em virtude de sua aliança estratégica com Israel e das intervenções militares em países do Oriente Médio, conhecidas como “Guerra ao Terror”, além das associações com grupos armados transnacionais.
Nesse ponto, compreende-se que, desde o fim da Guerra Fria, a questão síria passou a refletir as tensões e animosidades existentes entre os Estados Unidos e a Rússia. De um lado, a Rússia, sucessora da União Soviética, manteve sua permissão de uso das bases militares na Síria; de outro lado, os EUA, sob a justificativa de combater o terrorismo internacional, instalou bases militares no território sírio sem autorização, e mesmo com a oposição aberta, do governo sírio.
Após a derrubada de seu regime, Assad buscou asilo político com seu aliado russo, e a Rússia negocia com o novo governo a possibilidade de manutenção de seu acesso às bases militares. Os Estados Unidos, por seu turno, continuam mantendo suas bases militares na Síria e também se fazem presentes a partir de seu relacionamento com Israel.
Atualmente, a situação político-estratégica da Síria encontra-se marcada pelo apoio turco em razão da aliança com o novo governo comandado por Ahmed Al-Sharaa, líder do grupo islâmico HTS e, também, pelos interesses militares da Turquia na região. Essa associação resulta da decadência do status dos principais aliados de Bashar Al-Assad - Rússia e Irã - e na oportunidade visualizada pela Turquia em aumentar significativamente sua influência a ponto de tornar a Síria seu protetorado. Desse modo, os países estão trabalhando num acordo de defesa que baseará a implementação de bases militares na Síria, com vistas a fortalecer o novo controle político, lutar contra a presença armada curda, ou seja, as Forças Democráticas da Síria (SDF), que são apoiadas pelos potência estadunidense e, também, com finalidade de intimidar Israel.
Salienta-se que a ação turca é percebida em alianças de milícias, como o Exército Nacional Sírio e o Hayat Tahrir-al Shams, que, ainda no comando de Assad, dominava a porção noroeste na Síria. Além de conversas acerca da cooperação militar entre os Estados, dedicadas a suprir necessidades estratégicas, como a reconstrução das forças armadas sírias e a estabilização de bases navais. Pensa-se em estender a cobertura da segurança às regiões aéreas e marítimas. Em reação à essa movimentação, Yevgeny Satanovsky, especialista russo em questões do Oriente Médio, afirmou que o conflito sírio foi "inequivocamente vencido não apenas pelos islâmicos locais, mas pela Turquia e seu aliado – o Emirado do Catar". Assim sendo, pode-se entender que a situação síria demonstra o declínio da atuação russa na região, ilustrando um golpe com a participação da Turquia e de outros Estados islâmicos.
Com o desenrolar da guerra-civil síria e as ameaças crescentes às comunidades drusas na Síria, houve um aumento significativo nos pedidos de cidadania israelense entre os drusos das Colinas de Golã, território sírio atualmente ocupado por Israel. Até o ano passado, antes da queda do regime de Assad, aproximadamente 20% dos drusos do Golã haviam solicitado cidadania israelense, com expectativas de maior segurança na região. Recentemente, Israel demonstrou preocupação com a segurança das comunidades drusas na Síria, especialmente em áreas próximas a Damasco, como Jaramana. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu instruiu as forças militares israelenses a se prepararem para defender os drusos nessa região contra possíveis ameaças, incluindo confrontos com o exército sírio, e possíveis milícias turcas. Essa postura reflete a estratégia de Israel de apoiar minorias regionais para ampliar sua influência em áreas de instabilidade política, como ocorre no momento entre as fronteiras da Síria.
Concomitante à situação dos Drusos, há outra questão entre minorias regionais no território sírio. A queda do regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2024 trouxe profundas mudanças na Síria, afetando significativamente a comunidade alauíta, à qual Assad pertencia. Os alauítas são uma minoria étnica-religiosa que constitui uma parcela relevante da população síria, e historicamente ocuparam posições de destaque no governo e nas forças armadas durante o regime de Assad. Em março de 2025, intensos confrontos ocorreram nas províncias costeiras de Latakia e Tartus, regiões com significativa população alauíta. Esses conflitos resultaram em mais de milhares de mortes, incluindo muitos civis alauítas, marcando um dos episódios mais violentos desde a queda de Assad.
A eclosão de conflitos envolvendo Israel e grupos como o Hamas e o Hezbollah levou a uma escalada nas tensões entre Israel e Turquia. Em outubro de 2023, o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan condenou as ações de Israel em Gaza, classificando-as como um "massacre", e afirmou que o Hamas não é uma organização terrorista, mas um grupo de libertação lutando para proteger suas terras e seu povo. A situação agravou-se em novembro de 2024, quando Erdoğan ameaçou a ruptura de todas as relações diplomáticas com Israel, citando a relutância de Israel em encerrar a guerra em Gaza. A deterioração das relações entre Israel e Turquia ocorre em um contexto de rivalidade crescente no Oriente Médio, com ambos os países buscando expandir sua influência na região, especialmente após o colapso do regime sírio. Essa rivalidade tem se agravado ainda mais com a instabilidade política no território sírio, onde ambos os países lutam para manter a maior influência possível na região.
Dado os eventos recentes mencionados, as estratégias geopolíticas atuais da Síria estão sendo redefinidas após a queda do antigo regime. O governo de transição, estabelecido pelo Governo de Salvação da Síria (GSS) com o objetivo de implementar reformas políticas e sociais, tem se mostrado frágil, com desafios significativos na consolidação de um modelo democrático efetivo e inclusivo. O novo governo sírio adotou uma política externa que busca redefinir suas alianças na região.
A Síria está em um período de reinvenção política e social, especialmente para suas mulheres, que desempenhavam papeis diversos em um país fraturado confessionalmente. O futuro da Síria dependerá da capacidade do novo governo de implementar reformas democráticas, estabilizar a economia e estabelecer relações diplomáticas equilibradas com outras nações. Os líderes da Turquia e de Israel mantêm conversações sobre a reconstrução da Síria e poderiam trabalhar juntos para promover a estabilização da região. Porém, é necessário analisar como a disputa de poder e de influência podem afetar essas negociações. O apoio da comunidade internacional será crucial para facilitar essa transição e garantir a estabilidade no país e na região.
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