O Caso Skripal - Nunca Perca a Oportunidade de Explorar uma Crise
- dri2014
- Apr 18, 2018
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No dia 4 de março de 2018, o ex-agente russo Sergei Skripal (66) e sua filha Yulia Skripal (33) foram encontrados desacordados no banco de um shopping na cidade de Salisbury, Inglaterra. Imediatamente, suspeitou-se de uma ação de envenenamento por um agente nervoso. A polêmica inicial do incidente surgiu depois que o Reino Unido, de forma inconsequente, apresentou ao púbico uma rápida “solução” do caso. Em menos de 48 horas após o fato, Boris Johnson, Ministro das Relações Exteriores do Reino Unido apontou a Rússia como responsável pelo envenenamento dos Skripal, já que teria sido constatado que a substância utilizada foi o agente nervoso A-234 (conhecido também como “Novichok”), um agente químico muito mais letal do que outros gases neurotóxicos como Sarin ou VX. Este agente químico, na opinião do Governo Britânico, só teria sido produzido na Rússia. Soma-se a isso as notícias propagadas pela imprensa britânica de que haveria “laboratórios secretos russos” onde, supostamente, o agente nervoso seria produzido. A situação tornou-se mais grave após a Primeira-Ministra britânica oficialmente responsabilizar a Rússia pelo incidente diante do parlamento inglês, determinando um prazo de apenas 24 horas para que Moscou se explicasse, sob pena de medidas retaliatórias. Como a Grã-Bretanha é participante da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) e signatária da Convenção de Armas Químicas, o país requereu assistência técnica do Secretariado Técnico da OPAQ, que instituiu um procedimento de análise laboratorial cujo resultado confirmou a identidade do agente químico (sem, no entanto citar o nome). Nenhuma conclusão, porém, consta do relatório a respeito da origem do agente utilizado, isto é, de qual país ele teria se originado. Vale notar que o chefe-executivo do Laboratório governamental britânico responsável pela análise inicial da amostra (Laboratório de Ciências e Tecnologia de Defesa) declarou que o laboratório não pode identificar onde a substância foi realmente produzida. Hoje sabe-se que diversos países, incluindo Estados Unidos, França e a Inglaterra, possuem amostras do Novichok e ou teriam a capacidade de produzi-lo. O governo britânico rejeitou de pronto a oferta russa de assistência na investigação do caso, bem negou acesso às amostras em sua posse. A Grã-Bretanha tem proibido também acesso consular aos dois nacionais russos, como garantido pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas e a Convenção de Viena sobre Relações Consulares. A propósito, a filha de Sergei não apenas é russa mas mora na Rússia também. Ela estava visitando o pai. Há diversos pontos de dúvida nessa história. Segundo o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, um dos laboratórios que analisaram as amostras para a OPAQ teria detectado a presença do agente nervoso BZ, que teria sido desenvolvido por países do bloco ocidental durante a Guerra Fria. O relatório da OPAQ afirma que o agente químico apresentava um “alto grau de pureza”, mostrando uma “quase completa ausência de impurezas”. Um dos criadores do agente Novichok afirmou que o agente é complexo, formado por uma mistura de vários componentes e aditivos que se decompõem, e, na sua opinião, a conclusão do relatório da OPAQ descaracterizaria o agente como sendo o Novichok. Ele acredita que Skripal e filha foram provavelmente vaporizados com fentanil, que explicaria melhor a reação física das vítimas, incluindo o fato dos olhos não terem sido afetados e as vítimas terem sobrevivido. Há, ainda, outras divergências na história, tais como sobre o local onde os dois foram envenenados: após 24 dias do incidente, foi anunciado que uma grande concentração do A-234 foi encontrada na porta da casa dos Skripal, o que causa estranhamento, já que os efeitos do agente químico deveriam ter sido imediatos e não somente três horas após Sergei e Yulia saírem de casa. A narrativa oficial do governo britânico, marcado por discrepâncias e na qual os fatos não encontram harmonia entre si, constitui um cenário implausível, em que a Rússia teria autorizado o assassinato de um ex-agente que não apresentava ameaças à nação e aposentado há aproximadamente 10 anos – e mais implausível ainda é o ato ter sido realizado por agentes russos e não ter se concretizado, pois Sergei Skripal e sua filha sobreviveram ao que seria o agente químico mais letal de que se tem conhecimento. O caso, porém, justificou uma série de retaliações diplomáticas, que estremeceram ainda mais as relações entre o Ocidente e Rússia, e foi responsável pela expulsão mútua de um total de 342 diplomatas, algo que, por sua dimensão, foi inédito (mesmo considerado o período da Guerra Fria). Para ilustrar, entre o Reino Unido e a Rússia foram 96 diplomatas, dos quais 23 russos e 73 britânicos; e os Estados Unidos expulsaram 60 diplomatas russos, e em resposta Moscou expulsou igual número de diplomatas americanos. A OTAN prontamente se assenhorou do caso para inclui-lo na sua narrativa da ameaça russa, afirmando seu Secretário-Geral: “O ataque em Salisbury ocorre no contexto de um padrão de conduta irresponsável por parte da Rússia”. Para não deixar passar em branco, a OTAN expulsou 7 diplomatas da missão russa junto à organização. Como o caso ainda está sendo considerado no âmbito da OPAQ, ainda poderá haver medidas retaliatórias adicionais de ambos os lados.