Estratégia Militar dos Emirados Árabes Unidos: bases em Socotra, Abd al-Kuri e Mayun no Contexto da Guerra Iemenita
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O arquipélago de Socotra, localizado no Golfo de Áden, a 240 quilômetros do Chifre da África, apesar de ainda pertencer oficialmente ao Iêmen, está sob controle dos Emirados Árabes Unidos (EAU), integrando a agenda expansionista do país no Iêmen após a intervenção contra os rebeldes houthis em 2015, com vistas à separação do território e à sua administração como posse própria.
De maneira geral, o projeto dos Emirados Árabes Unidos de controle de ilhas e bases costeiras está intrinsecamente vinculado ao contexto da guerra no Iêmen. Em março de 2015, a Arábia Saudita liderou uma coalizão militar, da qual os EAU faziam parte, para combater os rebeldes Houthis e restaurar o governo reconhecido internacionalmente. Contudo, para os Emirados Árabes Unidos, o conflito foi também uma oportunidade de projeção estratégica em uma das mais importantes rotas marítimas do mundo. O Estreito de Bab al-Mandab, localizado entre o Iêmen e o Chifre da África, é por onde passa aproximadamente 30% do petróleo mundial. Portanto, a possibilidade de controlar as ilhas e os portos que circundam esse estreito permite dominar um dos maiores chokepoints marítimos do planeta.
Em 2018, os Emirados Árabes Unidos já haviam estabelecido uma base militar na ilha de Socotra. O governo iemenita considerou a ação como uma agressão injustificada à soberania nacional. A crise foi temporariamente resolvida por mediação da Arábia Saudita, com a retirada formal das tropas emiratenses e do aeroporto e do porto, ainda que sem a sua saída completa da ilha. A partir de 2022, em Bosaso, no Puntland, o aeroporto foi transformado em uma sofisticada instalação militar gerenciada pelos EAU. Imagens de satélite revelam um complexo com radar capaz de rastrear alvos a mais de 400 km, cobrindo todo o Golfo de Áden. Na ilha de Abd al-Kuri, segundo o ISPI (Istituto per gli Studi di Politica Internazionale), no início de 2024, imagens de satélite registraram "atividade aumentada", incluindo a construção de uma pista próxima à água e o movimento de veículos pesados.
Atualmente, esse cenário insere-se em um contexto de ruptura geopolítica entre os EAU e seus parceiros regionais. No final de 2025, o Conselho de Transição do Sul (CTS) realizou uma tomada militar dos governatoratos iemenitas de Hadramaut e Mahra. Em resposta, a Arábia Saudita lançou uma reação diplomática e militar e, atacando o que descreveu como rotas de abastecimento dos Emirados Árabes Unidos, dissolveu o CTS e pressionou os EAU a anunciar uma retirada completa do Iêmen. A Somália, por sua vez, ao identificar a atuação dos Emirados Árabes Unidos por trás do reconhecimento israelense da Somalilândia, território localizado entre a Somália e a Etiópia, convocou uma intervenção militar saudita e anunciou o rompimento de relações com os EAU. Em janeiro de 2026, a TV estatal saudita revelou que os EAU teriam construído uma pista na ilha de Mayun capaz de receber aeronaves militares israelenses, uma escalada que, se confirmada, representa a inserção direta de Israel no solo iemenita em pleno conflito com os Houthis.
O que foi desenvolvido ao longo de uma década representa uma estrutura de controle marítimo sem precedentes para um país do Golfo. A rede de bases facilita o controle desse trecho vital pelos EAU e seus aliados, que viabiliza uma rede integrada de defesa antimíssil e compartilhamento de inteligência. As ocupações mais críticas se referem a três ilhas: Mayun (Perim), Socotra e Berbera. Mayun divide o estreito em dois canais distintos e canaliza o tráfego internacional por rotas definidas. Assim, o controle dessa área confere a capacidade de monitorar, interceptar ou potencialmente interromper o tráfego ao longo de uma das mais econômicas rotas marítimas do planeta. A pista construída em Mayun permite lançar ataques aéreos sobre o Iêmen continental e conduzir operações simultâneas no Mar Vermelho, no Golfo de Áden e no Leste africano próximo. A ocupação ocorreu por meio de uma tomada militar direta. Moradores originais da ilha, apoiados pelas Forças Armadas dos Emirados Árabes Unidos, derrotaram os Houthis numa batalha violenta de algumas horas. A dominação da ilha oferece o controle físico do chokepoint mais crítico do Mar Vermelho. A ilha divide o Bab al-Mandab em dois canais, dessa forma, quem a controla decide quem passa.
Socotra, por sua vez, é a maior ilha, a mais populosa e a que concentra o maior volume de infraestrutura emirati. Está localizada entre o Mar Vermelho, o Golfo de Áden e o Leste africano . Além da dimensão militar, é a que mais compromete a soberania iemenita de forma visível: os EAU expandiram o único aeroporto da ilha, construíram bases militares, instalaram torres de telecomunicações e dois sistemas de inteligência de sinais. A dominação ocorreu em 3 fases. Primeiro, os EAU foram responsáveis pela ajuda humanitária após os ciclones de 2015, o que serviu como porta de entrada. Em seguida, em 30 de abril de 2018, mais de 300 soldados, blindados e tanques tomaram o controle do porto e do aeroporto sem autorização do governo iemenita. Por fim, em junho de 2020, o grupo separatista aliado dos EAU, o CTS, assumiu o controle administrativo total, consolidando a ocupação. Para os EAU, é fundamental controlar chokepoints e Socotra é o hub que conecta simultaneamente o Mar Vermelho, o Golfo de Áden e o Leste africano. A ilha nunca foi ameaçada pelos Houthis; a guerra pode ser considerada apenas um pretexto.
Berbera, então, pode ser considerada a ilha que tem o maior alcance estratégico para além do conflito iemenita imediato. A base aérea dos EAU foi construída em torno de uma pista soviética de quase quatro quilômetros, uma das mais longas da África, que Abu Dhabi renovou para acomodar aeronaves pesadas de transporte e combate. Sem Berbera, a rede perde seu ancoradouro no continente africano e com ele, a capacidade de projetar poder tanto para o interior da África quanto para o flanco sul do estreito. Ocupada desde fevereiro de 2017 por meio de um acordo diplomático negociado, Berbera permite operar pelo lado oposto do Bab al-Mandab, apoiar o Iêmen por rotas aéreas alternativas e projetar influência econômica no interior da África via porto e ferrovia.
O governo iemenita internacionalmente reconhecido condenou energicamente a ocupação das ilhas por Abu Dhabi. Em 2018, o gabinete do primeiro-ministro iemenita classificou a tomada de Socotra como um ataque injustificado à soberania do Iêmen. A autoridade Houthi (Sana’a) também denunciou a presença dos Emirados como uma ocupação ilegal e ligada a planos de normalização com Israel. Na Somália, o governo federal rompeu todos os acordos com os Emirados em janeiro de 2026, acusando Abu Dhabi de minar sua soberania e fomentar divisões internas (como o reconhecimento da Somalilândia). A Arábia Saudita, por sua vez, aliada dos Emirados no Iêmen, atuou nos bastidores para estabilizar a situação sem culpar publicamente Abu Dhabi. Logo após a saída dos Emirados, a Arábia Saudita assumiu o controle do aeroporto de Socotra e passou a operar voos diretos a Jeddah, sinalizando, então, apoio ao governo iemenita e não ao controle emiradense.
Em janeiro de 2026, uma crise diplomática entre Emirados e Arábia Saudita resultou na retirada das tropas dos EAU de Socotra. Estima-se que a exigência saudita para acabar com as ações unilaterais dos Emirados levou Abu Dhabi a cessar suas operações na maior ilha, deixando centenas de turistas estrangeiros isolados. A interrupção dos voos e a troca de controle do aeroporto – agora operando para Jeddah em vez de Abu Dhabi – foram confirmadas, assim, notou-se que as instalações aéreas não estão mais sob controle emiradense após determinada retirada. Portanto, não houve uma derrota militar direta, mas, sim, uma pressão política que forçou os Emirados a se retirarem de Socotra.
As ilhas em questão – Socotra (com Abd al-Kuri, Samhah e Darsa) e outras pequenas – são reconhecidas internacionalmente como território do Iêmen. A legislação e mapas oficiais iemenitas consideram Socotra e seu arquipélago como parte integral do país. Apesar de os Emirados afirmarem ter “arrendado” Socotra por 99 anos, o Iêmen negou esse acordo e nunca cedeu sua soberania. Atualmente, o Conselho de Transição do Sul (STC), apoiado pelos Emirados, controla, de fato, parte dessas ilhas, mas não há reconhecimento internacional dessa mudança. O futuro das ilhas dependerá da resolução do conflito iemenita. Analistas sugerem que, num eventual cessar-fogo regional, sauditas e emiradenses deveriam evacuar localizações como Socotra e restaurar a soberania iemenita sobre elas. Até lá, a tendência oficial permanece de retorno ao domínio do governo legal do Iêmen, embora o desfecho exato dependa de negociações de paz e da atuação dos atores locais.















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