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A Atual Encruzilhada no Oriente Médio: Entenda a Posição dos Países do Golfo diante da Guerra no Irã

  • 18 hours ago
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A escalada dos conflitos entre Estados Unidos, Israel e Irã seguem produzindo efeitos concretos no cenário internacional contemporâneo. Iniciada em fevereiro de 2026 e liderada por Washington e Tel Aviv, a Operação “Fúria Épica” tem, como seu principal objetivo declarado, a eliminação de ameaças à segurança internacional promovidas pelo regime iraniano. A partir da intensificação das investidas militares, diversas implicações podem ser interpretadas como produtos das tensões geopolíticas, evidenciadas principalmente após a decisão iraniana de bloquear o Estreito de Ormuz — medida que impactou diretamente no aumento dos preços de combustíveis a nível global. 

Seguindo as ofensivas, Teerã passou a liderar uma série de retaliações direcionadas, sobretudo, a infraestruturas militares e civis em países do Golfo Pérsico. Essa estratégia teve como objetivo elevar imediatamente os custos da guerra, provocando instabilidade não apenas a nível regional, mas também na economia global. Nesse contexto, a presença de bases militares americanas em territórios de países do Golfo transformou essas nações em alvos diretos das ações iranianas. Diante desse cenário, os países do Golfo passaram a operar em um ambiente de segurança profundamente alterado. Os membros do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) enfrentam agora uma difícil encruzilhada: ao mesmo tempo em que buscam evitar uma nova escalada do conflito, precisam encontrar formas de dissuadir o Irã de novas agressões sem, contudo, serem percebidos como participantes de um esforço de guerra orquestrado por Estados Unidos e Israel. Autoridades da região temem que o fracasso em qualquer uma dessas frentes transforme o Golfo em um espaço permanente de retaliação iraniana sempre que as tensões com Washington aumentem. 

Dentro do próprio Golfo, entretanto, há diferenças de posicionamento. Em um extremo, apesar de algumas divergências, estão a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU), que demonstram maior disposição em alinhar-se aos Estados Unidos contra o Irã. Para eles, a dissuasão é essencial para evitar ataques contínuos contra seus territórios. Autoridades dos Emirados Árabes Unidos, por exemplo, têm defendido que um simples cessar-fogo não seria suficiente, sendo necessário um desfecho mais abrangente que enfrente o conjunto das ameaças iranianas, incluindo capacidades nucleares, mísseis, drones e o uso de atores intermediários. 

Segundo o acadêmico Jeffrey Sachs, no entanto, os países do Golfo cometeram um erro estratégico ao se aliarem aos Estados Unidos e a Israel, em busca de proteção. Em entrevista concedida à RT India, Sachs defende que países como os Emirados Árabes Unidos encontraram-se em uma posição de ameaça frente às retaliações iranianas no conflito. Os impactos da aliança com Estados Unidos e Israel têm efeitos negativos em diversos setores da sociedade e da economia dos EAU, como a queda no turismo e o bombardeio de infraestruturas de gás e plantas de dessalinização. 

Visando à redução da dependência em relação aos Estados Unidos — e também como uma forma de evitar confrontos com o Irã —, países do Golfo têm formado alianças com potências médias. Esse é o caso dos pactos firmados entre Emirados Árabes Unidos e Índia, Arábia Saudita e Paquistão, e tratados de defesa entre Arábia Saudita, EAU, Catar e Ucrânia, especialmente voltados ao enfrentamento de ameaças relacionadas ao uso de drones. Outros países da região têm priorizado respostas predominantemente diplomáticas. O Catar, por exemplo, adotou uma postura mais assertiva no campo diplomático, condenando explicitamente o Irã e chegando a expulsar representantes militares e de segurança iranianos de Doha após ataques a instalações estratégicas de gás natural liquefeito. Ainda assim, a liderança  sustenta que apenas por meio da diplomacia será possível alcançar uma resolução duradoura para o conflito. 

Esse cálculo estratégico se torna ainda mais complexo diante da possibilidade de uma retirada abrupta dos Estados Unidos do conflito. Um cenário desse tipo poderia deixar os países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) isolados, enquanto o Irã manteria uma campanha de baixa intensidade contra alvos na região do Golfo, prolongando a instabilidade e elevando os riscos de novos ciclos de escalada.

Por outro lado, existe também, mesmo que em baixa probabilidade, um possível alinhamento dos países do Golfo ao posicionamento iraniano. Tal desdobramento depende de forma direta da diminuição expressiva da influência militar e econômica estadunidense sobre a região, o que geraria uma reconfiguração profunda das dinâmicas de equilíbrio de poder do Oriente Médio como um todo. Sob essa perspectiva, determinadas monarquias do Golfo poderiam adotar medidas mais pragmáticas, guiadas pela busca por maior estabilidade regional e manutenção da segurança, procurando preservar suas infraestruturas críticas mediante o agravamento do conflito. No entanto, essa possível aproximação não significa, necessariamente, a concessão de apoio incodicional e o alinhamento político completo de certos países do Golfo com o Irã, configurando-se como uma medida estratégica de minimização de danos. Nesse contexto, a normalização gradual de relações diplomáticas e econômicas com Teerã poderia ser interpretada como uma forma de reduzir a chance de ataques graves e garantir  uma maior previsibilidade em um ambiente regional volátil.

Não obstante, existem certos obstáculos que impediriam a implementação plena de uma possível estratégia de alinhamento. Dentre eles, é possível destacar a alta dependência econômica, militar e tecnológica aos Estados Unidos, apresentada por parte considerável dos países do Golfo, o que impede um afastamento completo e repentino da potência global. Além disso, discrepâncias religiosas entre os regimes xiita iraniano e a maioria sunita dos demais Estados do Golfo dificultam a possibilidade de aproximação, bem como o histórico de conflitos interestatais apresentado pela região.

Embora menos provável no curto prazo, a possibilidade de um realinhamento estratégico de países do Golfo em direção ao Irã não pode ser completamente descartada. Esse movimento dependeria, sobretudo, de uma reconfiguração significativa do equilíbrio de poder regional, marcada por uma eventual redução do compromisso militar dos Estados Unidos no Oriente Médio. Nesse cenário, a busca por garantias mínimas de segurança poderia levar algumas monarquias do Golfo a adotarem posturas mais pragmáticas, priorizando a estabilidade interna e a preservação de suas infraestruturas críticas em detrimento de alianças tradicionais. Esse tipo de aproximação não implicaria, necessariamente, em uma aliança formal com Teerã, mas sim em estratégias de acomodação e coexistência. Países como Omã e Catar, historicamente mais inclinados à mediação diplomática, poderiam desempenhar um papel central nesse processo, atuando como pontes entre o Irã e o restante do Golfo. A normalização gradual de relações diplomáticas e econômicas com Teerã poderia ser vista como uma forma de reduzir a probabilidade de ataques e garantir maior previsibilidade em um ambiente regional volátil.

Ainda assim, tal movimento enfrentaria obstáculos estruturais relevantes. As divergências sectárias entre regimes majoritariamente sunitas e o Irã xiita, bem como o histórico de rivalidade geopolítica, limitam a profundidade de qualquer aproximação. Além disso, a dependência militar e tecnológica de diversos países do Golfo em relação aos Estados Unidos dificulta uma ruptura abrupta, tornando mais provável a adoção de políticas externas ambivalentes, que busquem equilibrar múltiplos polos de poder simultaneamente. 

Paralelo a isso, a atuação acentuada do Irã na região tem reforçado sua capacidade de projeção de poder por meio de redes de influência indireta. Nesse sentido, ao apoiar grupos políticos e militares em países como Líbano, Palestina, Iêmen, Iraque e Bahrein, o regime iraniano consolida uma estratégia de expansão baseada em atores não estatais e alianças assimétricas. Essa estratégia permite ao Irã ampliar seu alcance regional sem necessariamente recorrer a confrontos diretos, reduzindo custos e aumentando sua capacidade de dissuasão frente a adversários externos, como os Estados Unidos. Como exemplo, o fortalecimento do Hezbollah no Líbano garante ao Irã uma posição estratégica no Levante, enquanto, na Palestina, o apoio a grupos armados, como o Hamas, amplia sua relevância no conflito contra Israel. No Iêmen, a relação com os houthis tem pressionado diretamente rotas marítimas essenciais, ao passo que, no Iraque, milícias alinhadas a Teerã influenciam tanto a segurança quanto a política interna. Já no Bahrein, tensões sectárias oferecem ao Irã oportunidades de exercer pressão indireta sobre um dos membros mais vulneráveis do Golfo.

Assim, a possibilidade do Irã se consolidar como uma potência regional torna-se cada vez mais plausível, especialmente se conseguir manter e expandir sua rede de influência sem provocar uma resposta militar decisiva de seus adversários. Dessa forma, os países do Golfo encontram-se frente ao desafio de lidar com um adversário estatal, além de com uma arquitetura de poder difusa, capaz de operar simultaneamente em múltiplos territórios e de redefinir a dinâmica de segurança no Oriente Médio.


 
 
 

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