Ouro Supera Títulos do Tesouro Americano em Reservas de Bancos Centrais
- Mar 4
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O mercado financeiro funciona fundamentalmente a partir da especulação sobre o futuro. Tendo isso em vista, nota-se que houve nos últimos anos, em escala global, um aumento expressivo das reservas de ouro dos bancos centrais e uma redução drástica na compra de ativos denominados em dólar e de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. De acordo com analistas financeiros, o centro de tal mudança da política monetária internacional reside em transformações estruturais ligadas à quebra de confiança no sistema monetário contemporâneo, ultrapassando limites de tendências simplesmente cíclicas.
Segundo informações do World Gold Council,Bancos Centrais de diferentes países acumularam mais de 1.000 toneladas de ouro em cada um dos últimos três anos, acompanhando o dado de que 73% dos bancos centrais respondentes da pesquisa da instituição acreditam na queda moderada ou significativa das reservas de dólares americanos nos próximos cinco anos. Entre os tópicos identificados como relevantes para as decisões de gestão de reservas, prevalecem os níveis da taxa de juros, mas 76% dos entrevistados na pesquisa apontam a instabilidade geopolítica como uma questão de importância central.
Essa dinâmica se relaciona com a alta valorização do ouro na última década, que passou de US$ 1.000 para US$ 4.800 por onça, representando uma valorização de 70% apesar de taxas de juros relativamente altas. Tal situação anômala indica que há uma motivação forte para a busca de ativos reais, possivelmente ligada ao decréscimo do poder de compra do dólar. Embora as maiores reservas históricas de ouro estejam concentradas em economias avançadas, praticamente todas as compras recentes provêm de economias em desenvolvimento e emergentes, destacando-se China, Índia, Turquia, Brasil e Polônia.
Tal cenário pode, também, estar ligado ao fato de que o ouro é classificado como um ativo físico, de modo que sua aquisição pode mitigar impactos causados por choques externos na economia, intrínsecos ao mercado financeiro, tais como conjunturas inflacionárias e crises geopolíticas. Diferentemente da compra de títulos públicos de outros Estados, por exemplo, a aquisição do ouro como ativo para formação de reservas não depende da ação externa de uma instituição emissora intermediária, o que diminui a vulnerabilidade das reservas a circunstâncias adversas.
Além disso, soma-se como fator contribuinte para o agravamento da conjuntura o histórico nível de endividamento público dos Estados Unidos. No ano de 2026, os EUA apresentaram em torno de US$ 38,5 trilhões em dívidas, representando aproximadamente 120% de seu Produto Interno Bruto. Tal conjuntura gera alertas quanto à sustentabilidade fiscal estadunidense a longo prazo, o que pode aumentar riscos econômicos em escala global. Dívidas de magnitude expressiva, como a norte-americana, provocam implicações políticas e econômicas como a maior vulnerabilidade a choques externos e o aumento de dúvidas quanto à capacidade de manutenção sustentável da dívida, por parte dos EUA.
De acordo com o BRICS Brasil, a compra de ouro surge como resposta às inseguranças causadas pela escalada de tensões geopolíticas — especialmente a partir de 2022, ano que marcou o início do conflito russo-ucraniano — e pelo enfraquecimento da hegemonia do dólar, sendo a medida também fundamental para a proteção contra eventuais sanções. Em especial, o Banco Central do Brasil adquiriu 42,8 toneladas de ouro entre setembro e novembro de 2025, fazendo com que seu montante na época representasse 172,4 toneladas. Essa compra reflete uma mudança significativa de postura, visto que a instituição não adquiria o metal desde 2021.
No entanto, países que apresentam histórico de relações diplomáticas e econômicas complexas com os Estados Unidos, a exemplo, especialmente, de Rússia e China, apontam para possíveis riscos de restrições impostas aos títulos norte-americanos já adquiridos. Apesar de não haver, até o momento, iniciativas formais fomentadas pelos EUA nesse sentido, estratégias de restrição como o congelamento de títulos e a aplicação de sanções econômicas configuram possibilidades reais em contextos de tensão geopolítica, o que aumenta o apelo por reservas alternativas.
Nesse sentido, apesar da potencial escalada da conjuntura de tensões político-econômicas externas e da existência de riscos envolvidos no processo de substituição de reservas, o sentimento presente na comunidade de bancos centrais é amplamente positivo, refletindo a confiabilidade associada ao ouro em tempos de crise geopolítica e macroeconômica.



















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