Líder da Oposição Taiwanesa Faz Visita Inédita à China
- May 8
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Em 10 de abril de 2026, o encontro entre Xi Jinping, Secretário-Geral do Partido Comunista da China (PPCh), e Cheng Li-wun, presidente do partido Kuomintang (KMT), marcou a primeira reunião entre as partes em uma década. O encontro busca a retomada do diálogo entre a República Popular da China e Taiwan, bem como a discussão acerca de medidas de cooperação baseadas no Consenso de 1992 — um entendimento político que reconhece o princípio de “Uma Só China”, ainda que as interpretações sobre o termo divirjam —, e o fortalecimento do discurso anti-independência taiwanesa.
A visita representa um episódio de forte impacto político e simbólico nas relações entre Taipei e Pequim. Em um contexto de tensões crescentes no Estreito de Taiwan, o encontro com Xi Jinping evidenciou a possibilidade de aproximação diplomática entre os dois lados, sinalizando a tentativa de reabrir canais de interlocução em meio ao bloqueio entre o governo taiwanês e as autoridades chinesas. A relevância da visita também reside em sua raridade, visto que se trata do primeiro deslocamento de um presidente em exercício do KMT à República Popular da China desde 2016. Ao incluir Nanjing, Xangai e Pequim em sua agenda, Cheng buscou associar a viagem a referências históricas e ideológicas do próprio partido, reforçando uma narrativa de continuidade política e legitimidade histórica do KMT. As visitas ao mausoléu de Sun Yat-sen, bem como os encontros com autoridades chinesas de alto escalão, evidenciaram a tentativa da líder oposicionista de projetar-se como uma figura capaz de reduzir tensões no Estreito. No entanto, cabe ressaltar a importância da visita de Cheng, sobretudo diante da atual conjuntura política taiwanesa.
Nesse sentido, a rivalidade entre o Partido Democrático Progressista (DPP) e o Partido Kuomintang constitui hoje o principal eixo da política taiwanesa, refletindo projetos substancialmente distintos para o futuro da ilha. Enquanto o KMT defende a retomada do diálogo e de relações mais próximas com Pequim, sustentando a ideia de estabilidade por meio da cooperação econômica e diplomática, o DPP consolidou-se como uma força política voltada à afirmação de uma identidade taiwanesa própria e à preservação de maior distanciamento político em relação à China continental. Desde a ascensão do DPP ao poder, em 2016, Pequim intensificou sua pressão diplomática e militar sobre Taiwan, ampliando exercícios militares e suspendendo canais oficiais de comunicação com Taipei.
Diante desse cenário, a visita de Cheng ganhou forte dimensão doméstica, sendo interpretada tanto como uma tentativa de promoção da paz quanto como um gesto excessivamente conciliatório diante das pressões chinesas. Ao receber Cheng, Xi Jinping projetou a imagem de disposição a negociações, sem necessariamente abdicar da premissa central de que os dois lados pertencem à mesma China. Assim, a preferência por uma retórica relativamente moderada, marcada por ambiguidades estratégicas, revela a intenção chinesa de preservar espaço político para influenciar a cena taiwanesa sem provocar um fechamento imediato de canais.
O pacote de medidas negociado — focado na promoção de trocas entre China e Taiwan e na cooperação — inclui áreas como o diálogo entre partidos, conectividade infraestrutural, facilitação comercial e cooperação cultural, e pode ter um efeito de aprofundamento das relações entre as partes. A adoção dessas medidas, entretanto, depende da concordância do DPP, partido no poder atualmente, que não reconhece oficialmente o Consenso de 1992.
Para Pequim, a visita tem importância estratégica ao veicular uma imagem harmoniosa entre a China e a líder da oposição taiwanesa, visando um afastamento do foco na cooperação armamentista entre o governo americano e a ilha. Além da projeção internacional, a imagem sinaliza a persistência de um apoio significativo à China, evidenciado por uma representante política relevante que considera a acomodação para com Pequim uma opção viável para as relações internacionais taiwanesas.
A reunião, em conjunto às medidas, indica o fortalecimento de atores políticos nacionais com políticas mais favoráveis ao diálogo com a China, especialmente entre o KMT, tensionando as relações focadas na defesa entre os Estados Unidos e Taiwan. Além disso, a maior difusão de ideais e interesses políticos da China em relação a Taiwan pode atuar como catalisador contra a manutenção atual do status quo da ilha, que opera como democracia com governo autônomo, apesar de ser reivindicada pela República Popular da China como parte integrante de seu território.













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