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Novos Alinhamentos Regionais no Golfo: a Rivalidade entre Arábia Saudita e Emirados Árabes e suas Implicações Externas

  • 4 days ago
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Há um processo de redefinição do equilíbrio de poder no Oriente Médio, iniciado mais de uma década antes do recente conflito em Gaza e do golpe na Síria. Uma das razões para isso é a reorientação da política externa norte-americana em direção à a Ásia e uma redução da sua presença militar no Oriente Médio, o que fez com que Estados árabes do Golfo Pérsico – Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait e Omã – se mobilizassem cada vez mais para preencher esse vácuo regional. Esses países têm aliado sua evolução interna a políticas externas cada vez mais assertivas em praticamente todos os conflitos do Oriente Médio, movimentações que têm como principais atores a Arábia Saudita e os Emirados Árabes. Ambos passaram por amplas reformas econômicas e sociais que se refletiram em sua projeção internacional, tornando-os atores relevantes em conflitos que se estendem  da Eritreia à Ucrânia. Isso também transformou as relações entre os países, visto que, embora sejam tradicionalmente aliados, a competição gerada pela crescente influência vem gerando divergências em política externa.

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes  compartilham objetivos gerais de política externa que envolvem conter a ameaça do Irã, o avanço da paz com Israel e, também, uma solução para a questão palestina e a garantia da estabilidade regional para gerar um terreno fértil para investimentos. No entanto, guerras civis recentes na região – Síria, Sudão e Iêmen – têm levado os países a priorizar diferentes objetivos de segurança nacional. 

A Guerra da Síria não envolveu uma competição direta entre Arábia Saudita e Emirados Árabes, mas revelou a evolução divergente de suas políticas externas ao longo da década. No início da Primavera Árabe, em 2011, ambos os países estavam alinhados no apoio às forças mais moderadas de oposição ao regime de Assad. Mas à medida que o conflito se desenvolvia, os Emirados Árabes Unidos se preocupavam cada vez mais com a ascensão de grupos islamistas radicais, especialmente com a ascensão do Estado Islâmico em 2014. Enquanto isso, a Arábia Saudita intensificou seus investimentos e financiou grupos salafistas ainda mais extremistas para tentar derrubar Assad, como o Exército do Islã. O salafismo tem sido historicamente apoiado pelos sauditas e combatido pelos emirados, que se opõem a qualquer forma de islamismo politizado. Assim, as políticas dos países se polarizaram  entre a preferência dos EAU pela estabilidade do governo de Assad e o apoio saudita a grupos de oposição ao regime sírio

Os dois países também têm um papel ativo na Guerra do Sudão, conflito travado entre as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF). Antes disso, Arábia Saudita e EAU tiveram envolvimento na deposição do ditador Omar al-Bashir no país e, posteriormente, na promoção dos militares em detrimento de um governo civil. Os Emirados Árabes e as RSF partilham uma relação histórica, incluindo a cooperação em outras guerras regionais. Os objetivos dos EAU ao apoiar as RSF incluem o estabelecimento de sua posição num país estrategicamente relevante para a sua economia e a preocupação com a possibilidade de um futuro instável sob o domínio islâmico.

As divergências entre os Emirados Árabes e a Arábia Saudita centram-se em seu apoio às Forças Armadas Sudanesas. Os EAU nutrem desconfiança em relação ao líder das SAF, o General Abdel Fattah al-Burhan, preferindo que o General Mohamed Hamdan Dagalo, líder das RSF, derrote-o e assuma o governo. Já a Arábia Saudita possui laços estreitos com os dois lados do conflito, atuando cada vez mais como mediadora. Entretanto, os Emirados Árabes, ao apoiar as RSF, necessariamente frustram a visão saudita para o Sudão. Aprimorando as capacidades militares das RSF, os Emirados dificultam as atividades das SAF e contribuem para o prolongamento dos combates dentro do Sudão.

Atualmente, o principal centro de disputa da rivalidade entre Emirados Árabes e Arábia Saudita é o Iêmen. Inicialmente, os dois países tinham objetivos em comum: contrariar o Irã e garantir a segurança iemenita contra os Houthis. No entanto, para a Arábia Saudita, o último objetivo é essencialmente existencial, pois um vizinho auti-saudita em suas fronteiras seria um grave risco. Essa preocupação não é partilhada pelos Emirados, que não dividem fronteira terrestre com o Iêmen. Assim, embora a estabilidade regional seja perseguida por ambos os países, é a Arábia Saudita que tem mais a perder com um Iêmen instável.

Além disso, por mais que os dois países apoiassem grupos anti-Houthi, esses próprios grupos estavam em conflito entre si, gerando a ruptura entre EAU e Arábia Saudita. Os Emirados apoiam o Conselho de Transição do Sul (STC), que defende o estabelecimento de um “Estado federal soberano e independente” no sul do Iêmen. Já a Arábia Saudita apoia a Congregação Iemenita para a Reforma (Islah), partido islâmico que possui visões muito distintas em relação ao STC. Os EAU consideram o Islah afiliado à Irmandade Muçulmana,  grupo que percebem como uma potencial ameaça a, e a Arábia Saudita se opõe ao movimento separatista do Sul e à perspectiva de um Iêmen dividido, defendido pelo STC.

À medida que a rivalidade se acirra, as preocupações se reverberam de maneira crescente ao longo de toda a região do Oriente Médio, mas principalmente entre os países membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait e Omã —, haja vista o papel central da aliança entre os EAU e Arábia Saudita na manutenção da estabilidade no Golfo Pérsico. Ao ocuparem a posição de dois dos principais centros de poder energéticos dessa região, as divergências, reveladas em apoio a lados opostos de guerras regionais, estratégias energéticas conflitantes e competição por investimentos globais, têm a capacidade de definir a balança de poder entre esses países.

Uma vez que os EAU decidiram deixar a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) a partir de maio deste ano, uma mensagem clara foi enviada à Arábia Saudita, que possui uma voz historicamente dominante na organização: a EAU rejeita o sistema liderado pelos sauditas. A fratura na parceria repercute de forma ainda mais severa considerando a corrente escalada de tensões envolvendo Israel e o Irã na região, pois, em tempos de crise, a tendência anteriormente seria de que as políticas dos EAU e da Arábia Saudita se alinhassem como contrapeso aos conflitos. Contudo, o desgaste nas relações se traduz no realinhamento desses países com outros da região que nem sempre almejam essa mesma estabilidade, agravando o contínuo cenário hostil.

A cooperação entre EAU e Israel no reconhecimento israelense da Somalilândia em dezembro de 2025, por exemplo, revela o papel crucial dos Emirados no estabelecimento do papel econômicoa e militar de Israel no Chifre da África, implicando numa maior influência desses países sobre o Mar Vermelho. Aproveitando-se desse fato e da impopularidade crescente de Israel por todo o Oriente Médio, a Arábia Saudita constrói uma narrativa em oposição a essa aliança, unindo parceiros regionais contra os EAU, um deles sendo o Egito. Isso se dá à medida que as tensões se desenvolvem e a aliança EAU-Israel passa a englobar também a Etiópia, em um triângulo de cooperação que vai de encontro aos interesses egípcios, haja vista a disputa existente entre o Egito e a Etiópia pelo domínio das águas do Rio Nilo.

Apesar de compartilharem semelhanças no que tange ao sistema político de tipo monárquico, os sauditas acreditam que os EAU não aceitam o papel dominante que a Arábia Saudita tem exercido em estabelecer um sistema estável de monarquias árabes, enxergando a posição dos Emirados como responsável por alimentar tensões que deveria conter. Ao mesmo tempo, os EAU consideram que a Arábia Saudita cultiva um certo desprezo aos Emirados, ao subestimar a sua influência econômica na região e seu papel e identidade em crescimento, de maneira independente da CCG.

O antagonismo entre essas duas potências regionais vai além da competição econômica histórica, apesar dos EAU terem sido considerados por muitos anos como o centro de poder do Golfo Pérsico, muito à frente do desenvolvimento da Arábia Saudita, que hoje busca lhes alcançar. A rivalidade é vista também imbuída nos objetivos políticos de cada um desses países e na sua abordagem quanto a movimentos políticos islâmicos que influem sobre a ordem regional. Mesmo que Arábia Saudita costume não tolerar esses movimentos, ela mostra-se aberta a trabalhar com eles nos casos em que outras alternativas mostram-se inviáveis. Enquanto isso, os EAU têm buscado erradicar esses movimentos na região a todo custo, o que implica muitas vezes no alinhamento com parceiros locais mais hostis e desagradáveis.

As ameaças ao sistema de integração regional do CCG levam a uma situação que passa a depender da mediação dos outros membros da Organização, na tentativa de minimizar a rivalidade entre os sauditas e os emiradenses. Para garantir o restabelecimento da ordem regional e evitar uma real ruptura, como a que ocorreu em 2017 provocada pelo Catar — sob acusações de apoio a grupos terroristas à época —, não basta que aliados ocidentais como os EUA intervenham, levando em conta que isso não foi suficiente na crise anterior. 

Uma estratégia conjunta entre os Estados Unidos e os parceiros do Golfo seria o ideal diante das tensões atuais envolvendo o Irã, pois maiores divisões e divergências na região podem tornar-se oportunidades, as quais o governo iraniano não perderia a chance de explorar. O papel do Ocidente é, portanto, de apenas reforçar a posição dos líderes do CCG, uma vez que a reaproximação entre EAU e Arábia Saudita serviria a interesses mútuos envolvendo desde o domínio energético e tecnológico, à atração de investidores que fomentam o turismo e os negócios locais, transformando a competição em cooperação e prosperidade.


 
 
 

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