A Estratégia Chinesa de Internacionalização do Renminbi
- May 30
- 5 min read

Em meio às crescentes tensões geopolíticas, a China tem adotado medidas estratégicas para reduzir a dependência do sistema financeiro ocidental, principalmente do sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), baseando-se na tentativa de ampliar o uso internacional do Renminbi (RMB) — moeda oficial da República Popular da China. Tal ação ocorre em conjunto com a popularização do seu próprio sistema de pagamentos internacionais, conhecido como CIPS - Cross-Border Interbank Payment System.
O CIPS foi criado pela China, em 2015, com o objetivo de facilitar pagamentos internacionais em RMB. Ele funciona como uma infraestrutura própria para liquidação de pagamentos internacionais, o que diminui a necessidade de utilizar o SWIFT e fortalece a internacionalização da própria moeda chinesa. O SWIFT, por si só, não movimenta dinheiro diretamente, funcionando como uma rede global de comunicação entre bancos. Assim, se torna uma ponte de conexão entre movimentações financeiras em todo o globo, sendo necessário para grande parte das transações comerciais internacionais. De maneira geral, essa estrutura proporciona aos países ocidentais uma grande influência sobre o sistema financeiro internacional, especialmente aos Estados Unidos.
Diante de um cenário global cada vez mais interdependente e sob a ameaça constante de conflitos de poder, surge a necessidade de países como a China e Rússia buscarem alternativas que diminuam sua vulnerabilidade a sanções e restrições internacionais. Dessa forma, a possibilidade de realizar movimentações financeiras que não dependam da chancela de países centrais, torna os Estados opositores da ordem global menos expostos às mudanças na conjuntura internacional e às eventuais punições.Contudo o CIPS não seria suficiente, sozinho, para que a operação acontecesse de maneira efetiva. Assim, a China precisou expandir esse sistema ao longo dos anos, de forma gradual e estratégica. Inicialmente, estudos mostram que a internacionalização do RMB ocorreu nos países próximos à China, primeiramente a países da Ásia, depois da América Latina e posteriormente a África, demonstrando o potencial de expansão progressiva do sistema.
Além disso, foi necessário a criação de “swap lines”, ou “linhas de troca cambial”, que representam acordos firmados entre o Banco Popular da China (PBCO) com dezenas de bancos centrais ao redor do mundo, permitindo que países utilizem RMB diretamente no comércio bilateral. Tais linhas de troca aumentaram a participação do RMB nos pagamentos realizados entre a China e outros países entre 2,2 e 3,7 pontos percentuais.
Outro passo importante foi o desenvolvimento de bancos offshore —fora da China — autorizados a operar RMB e compensar esses pagamentos. Esses bancos facilitaram o acesso ao RMB em diferentes regiões do mundo, fortalecendo a infraestrutura necessária para o funcionamento do CIPS.
Em abril de 2026, foi lançado um sistema que permite a consumidores indonésios e chineses pagar compras com seus smartphones, usando aplicativos locais para ler códigos QR que operam em moeda local. Essa iniciativa faz parte de um esforço mais amplo de Pequim para construir uma rede regional de pagamentos digitais, reduzindo custos e riscos cambiais. Analistas apontam que o principal objetivo é avançar na desdolarização, promovendo o uso internacional do yuan e integrando financeiramente a China com parceiros-chave do Sudeste Asiático. De fato, acordos semelhantes foram implementados em outros países: desde outubro de 2025 turistas chineses pagam com carteiras digitais domésticas na Tailândia e, no Vietnã, o UnionPay (ampliado ao Alipay em 2026) já possibilita transações em yuans; arranjos análogos existem na Malásia e em Singapura. Dessa forma, ao conectar suas plataformas a sistemas parceiros, a China transforma tecnologia financeira em poder geoeconômico.
Do ponto de vista prático, esses acordos de QR Code ampliam canais locais de pagamento e reduzem a necessidade de usar o dólar em transações de varejo internacionais. Embora sejam voltados principalmente a turistas e pequenas compras, eles representam uma nova camada na infraestrutura financeira. Assim, o sistema bilateral Indonésia–China não substitui o SWIFT em operações de larga escala, mas atua no varejo, turismo e consumo. Se vários países integrarem seus sistemas nacionais (incluindo, por exemplo, iniciativas semelhantes na Índia, Rússia ou outros membros ampliados do BRICS), uma parcela crescente das transações internacionais passaria a fluir por esses canais “alternativos” em moedas locais. Desse modo, os acordos transfronteiriços de QR Code favorecem a redução da dependência do dólar para pagamentos rotineiros, criando rotas de pagamento regionais em moeda local, mas, como advertem os analistas, não derrubam imediatamente o dólar nem alteram a ordem financeira global por si sós.
O yuan chinês tem avançado gradualmente em uso internacional (em 2025, já correspondeu a cerca de 39% dos fluxos comerciais da China em moeda estrangeira), mas ainda representa fatias modestas do sistema financeiro global. Segundo o FMI, apenas cerca de 2% do total das transações bancárias transfronteiriças são feitas em renminbi. Em termos de reservas cambiais oficiais, por exemplo, no fim de 2025 o dólar tinha 56,77% contra apenas 1,93% do renminbi. Esses números refletem a persistência do “privilégio exorbitante” do dólar, fundado em seus mercados profundos e na confiança em ativos americanos. Especialistas lembram que fatores estruturais (como a liquidez dos títulos do Tesouro dos EUA e a amplitude dos mercados financeiros ocidentais) ainda sustentam o predomínio do dólar. Mesmo assim, medidas práticas, como a expansão do CIPS chinês e dos pagamentos QR, mostram que, pouco a pouco, o comércio internacional pode ser diversificado em corredores menores e regionais.
Um ponto central é o papel do SWIFT na estratégia de sanções dos EUA. Tradicionalmente, excluir bancos adversários do SWIFT tem sido uma arma poderosa de coerção financeira. A análise do CFR destaca que, com a migração de mais transações para o CIPS (redes alternativas de mensagens da China), uma parcela maior dos fluxos em yuans deixa de aparecer nas estatísticas do SWIFT. Na prática, isso significa que, à medida que bancos globais aderem ao CIPS, as transações que contornam o SWIFT tendem a aumentar. Os autores observam que esse fenômeno “pode enfraquecer gradualmente” a eficácia do SWIFT como instrumento de sanções dos EUA. Em outras palavras, se regimes sancionados (como Irã, Rússia ou outros) encontrarem vias seguras fora do SWIFT (diretamente pelo CIPS ou via sistemas nacionais), a capacidade americana de isolar esses países sofreria algum abalo.
Entretanto, analistas salientam que essa perda marginal do poder de sanção não significa colapso imediato do dólar. Os fundamentos da moeda americana permanecem sólidos: ela continua a oferecer ativos de refúgio líquidos e uma infraestrutura financeira global robusta. Assim, essas iniciativas de desdolarização tendem a fragmentar o sistema financeiro global, criando “corredores regionais” de pagamentos em moedas locais, mas mantém o dólar no centro do sistema, ao lado de alternativas emergentes.
As iniciativas chinesas de interoperabilidade de QR Code e expansão do CIPS constituem peças concretas de sua estratégia de internacionalização do yuan. Ao facilitar transações diretas em moedas locais e criar redes de pagamento alternativas, Pequim constrói infraestrutura financeira paralela que, passo a passo, reduz a hegemonia exclusiva do dólar em setores de varejo e turismo. Ainda assim, o impacto real no dólar tem sido gradual e limitado. Especialistas ressaltam que os avanços do renminbi consistem em “diversificação marginal” do sistema monetário internacional, não em uma substituição abrupta. Em última análise, a mais provável evolução é um sistema financeiro global mais fragmentado: o dólar continua como pivô central, mas cada vez mais “cercado” por rotas de pagamento regionais em moedas locais, fruto de acordos bilaterais e blocos econômicos. Assim, as medidas chinesas deverão enfraquecer em certa medida a capacidade sancionatória dos EUA via SWIFT, mas não eliminam a relevância estrutural da moeda americana no curto prazo.











Comments