Os “Piratas” da Casa Branca: A Apropriação de Petróleo e de Gás Natural como Estratégia de Hegemonia Dos Estados Unidos
- May 30
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A Guerra do Irã vem afetando severamente os Estados Unidos em termos militares, mas, nos bastidores, Washington realiza uma manobra estratégica que redefine o fornecimento mundial de petróleo e gás através de uma dominação armada, porém silenciosa. Os Estados Unidos já foram muito sensíveis a choques de petróleo e o fechamento do Estreito de Ormuz teria sido uma catástrofe, visto que, no passado, o país não teria conseguido produzir petróleo suficiente para suprir a demanda interna. Mas hoje, Washington lidera como maior produtor mundial de petróleo, gás e produtos refinados, assim como o maior exportador mundial de gás natural liquefeito (GNL). Há uma tendência em acreditar que a alta dos preços do petróleo prejudica os Estados Unidos, mas o oposto é verdadeiro. A elevação dos preços da energia não é mais uma ameaça para Wall Street: é esse o objetivo.
Foi após a Guerra na Ucrânia, por exemplo, que os Estados Unidos se tornaram o maior exportador mundial de GNL. Ao sancionar Moscou e destruir os gasodutos do Nord Stream — estruturas submarinas construídas para transportar gás natural da Rússia diretamente para a Alemanha através do Mar Báltico —, os EUA não afetaram somente a Rússia, mas também tornaram a Europa um cliente permanente dos Estados Unidos, assegurando lucros a longo prazo. Isso não é por acaso: a separação oceânica dos Estados Unidos encarece o fornecimento de gás, então Washington precisou eliminar a concorrência do gás russo barato.
Os maiores concorrentes dos Estados Unidos no mercado mundial de GNL são o Catar e a Austrália. Da mesma forma que os EUA utilizaram a Guerra na Ucrânia para prejudicar a Rússia, Washington usa a guerra no Irã como pretexto para deteriorar a posição do Catar no mercado do GNL. Isso tem elevado os preços do gás na Europa e na Ásia sem afetar os EUA, que também surgem como um fornecedor confiável de energia em um mundo instável.
Por trás da inviabilização do gasoduto Nord Stream, há a tomada de controle pelos Estados Unidos da Bacia Levantina, um dos maiores campos de gás do mundo, localizado ao longo da costa da Síria, da Palestina e do Líbano. Além disso, há indícios de uma usurpação corporativa de gás e petróleo em Gaza, orquestrado pela empresa americana Chevron, que assinou um acordo de gás de US$35 bilhões com Israel, em dezembro. A Resolução 2803, estabelecida pelo Conselho de Segurança e responsável por endossar o plano de paz e estabilização para a Faixa de Gaza, menciona brevemente “água, eletricidade e esgoto”, mas as palavras “energia” e “gás” não aparecem uma única vez. Porém, na primeira Cúpula do Conselho de Paz, plataformas de petróleo e gás passaram repentinamente a figurar nos anúncios corporativos da “Nova Gaza”.
Soma-se a isso a invasão da Venezuela. Em setembro de 2025, na chamada “Operação Lança do Sul”, os Estados Unidos posicionaram navios na fronteira do país latino-americano sob a justificativa de combater o narcotráfico no Caribe. Em dezembro, a frota expôs seu verdadeiro objetivo ao piratear abertamente o petróleo venezuelano, uma campanha que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro em janeiro e na captura das maiores reservas de petróleo do mundo. Até hoje, a Marinha dos EUA segue estacionada na costa venezuelana, determinando quais petroleiros podem entrar e sair — não por acaso, a maioria é da Chevron. O próprio governo norte-americano procede com a formalização desse roubo, emitindo isenções do Tesouro e Licenças Gerais para suas próprias empresas, como se detivessem os direitos sobre o petróleo.
As recentes investidas norte-americanas não são aleatórias: Washington precisava de uma segunda reserva de petróleo estratégica antes de provocar o caos em curso no Irã. Mais do que isso, essas movimentações fazem parte de uma estratégia mais ampla de isolar a China de seus parceiros energéticos. Cerca de 60% do petróleo iraniano é exportado e, assim como Rússia e Venezuela, grande parte dele é enviado à China a preços baixos. Pequim recebe em torno de um terço do seu petróleo desses três fornecedores — e os Estados Unidos obtiveram êxito em atacar ou afetar consideravelmente todos eles.
Somados, esses fatores conferem múltiplas fontes de receita a Washington e o controle sobre a cadeia de produção e fornecimento de energia. A chamada “Doutrina Donroe”, adotada por Donald Trump como apropriação da “Doutrina Monroe”, envolve transferir o corredor energético mundial para o Hemisfério Ocidental, transferindo o mercado para o seio dos Estados Unidos. No entanto, esses planos não são exclusivamente de Trump, ou foram improvisados repentinamente: são frutos do governo Bush, que, em 2003 invadiu o Iraque em busca de petróleo. Naquela época, o discurso empregado envolvia “trazer democracia” ao país, mas na administração Trump, os Estados Unidos parecem ter abandonado as próprias tentativas de legitimação e aderiram ao uso da força como um fim em si mesmo.
Como toda ação exige um planejamento, a prática de “pirataria” estadunidense, desvelada na tentativa de domínio do setor energético em escala global, está alicerçada na sua Estratégia de Segurança Nacional, lançada ainda em novembro de 2025. As prioridades definidas ao longo da estratégia não escondem a real face do “Corolário Trump”; pelo contrário, apenas comprovam a objetividade das políticas energéticas promovidas pelo governo estadunidense, como forma de garantir maior acesso à cadeia global de suprimento de energia. Assim, os princípios a serem seguidos para o alcance da meta em questão se concentram todos em torno da lógica do “America First”, ou “América Primeiro”, enraizada na ideologia política americana desde o surgimento da Doutrina Monroe no século XIX.
Frente ao interesse de restabelecer os Estados Unidos como protagonista do sistema internacional, ao mesmo tempo que Trump é representado como o “Presidente da Paz” no documento citado, a paz fomentada pelo seu plano estratégico é limitada já em definição. Isso devido ao princípio de “Paz por meio da força”, estabelecido pelo governo como a melhor forma possível de dissuasão diante de possíveis ameaças. Além disso, a crítica de Trump às instituições internacionais é favorável à soberania fortalecida do Estado, contribui para a perpetuação de uma lógica individualista na construção de suas estratégias, e evita a participação de outros atores que possam atrapalhar os seus ganhos no processo.
Nesse sentido, as investidas estadunidenses reforçam o protagonismo da agenda energética como meio imprescindível de garantia à segurança econômica, visto que, segundo a estratégia oficial, “os Estados Unidos nunca devem depender de nenhum poder externo para o suprimento de componentes essenciais”. A partir desse princípio, a dominância no âmbito energético implica em benefícios múltiplos para a economia estadunidense no cenário atual, pois, além de produzir empregos e reduzir os custos para consumidores e empresários norte-americanos, torna-se combustível para alavancar o projeto de reindustrialização interna do país — definido também como uma das prioridades estratégicas do mandato — e ajuda a manter as vantagens no panorama tecnológico associado ao desenvolvimento de IAs.
O efeito dessas estratégias, viabilizado pelas guerras, portanto, não é somente obra do acaso, mas um resultado direto de uma lógica integrada para a proteção dos interesses norte-americanos, que reforça o poder e controle sobre o Hemisfério Ocidental, encorajando os governos nacionais e regionais alinhados com seus princípios e desencorajando a colaboração de seus parceiros com outros países fornecedores de GNL e petróleo. Isso porque o exclusivismo evita a desvantagem ao criar um mercado energético menos concorrencial, o que explica a eliminação gradual dos concorrentes por meio de conflitos — como a guerra da Ucrânia, que eliminou a Rússia da jogada, ou mesmo a guerra do Irã, que além de prejudicar o Catar como segundo maior fornecedor de energia mundial, fortaleceu os laços entre Israel e EUA.
Ademais, o compromisso de “liderar a partir de uma posição de força” produziu enormes custos civis e militares em Gaza, revelando as contradições existentes ao definir-se Trump como o “Presidente da Paz”, que utiliza do discurso da construção da “Nova Gaza” como maquete vitoriosa de pacificação da região, apenas para ocultar o verdadeiro interesse envolvido no conflito Israel-Palestina: a energia. Dessa forma, o setor privado, tal como revela a participação da Chevron no investimento em Gaza, possui um papel crucial no financiamento desse tipo de iniciativa, agindo como cúmplice de uma “pirataria” operante do Estado norte-americano.
Ao olhar para a lista de prioridades definidas pelos EUA no que diz respeito às relações estratégicas com a Europa, percebe-se uma incompatibilidade com o plano de ação atual. A destruição dos gasodutos de Nord Stream, levada a cabo pelos Estados Unidos como forma de deslocar o consumo de gás europeu para os fornecedores americanos, impede o restabelecimento efetivo das condições de estabilidade na Europa e de estabilidade estratégica na Rússia. Ambos saíram prejudicados na equação da guerra da Ucrânia, à medida que a Rússia perdeu mercado consumidor para os EUA, enquanto a Europa teve de aceitar a importação mais cara de energia perante a escassez produzida pela guerra.
Assim, a prioridade final dos EUA não pode ser reduzida à ideia de que eles dependem estritamente do gás e do petróleo existentes na região do Indo-Pacífico, visto que hoje lideram na produção e no fornecimento dessas energias para todo o mundo. O esquema em construção revela agora a necessidade de manutenção da hegemonia econômica, sobretudo, no campo energético, a fim de garantir a segurança e os interesses econômicos deste país.











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