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O Papel da China e da Rússia na Guerra do Irã

  • 6 days ago
  • 5 min read

A crescente centralidade do Irã no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio, especialmente em contextos de escalada militar recente, tem evidenciado a relevância do apoio indireto e, por vezes, estratégico de potências como China e Rússia. Em meio a tensões envolvendo Irã, Israel e aliados ocidentais, observa-se a consolidação de uma rede de cooperação que transcende o campo diplomático, alcançando dimensões militares, tecnológicas e energéticas. Tal dinâmica insere-se em um contexto mais amplo de contestação à ordem internacional liberal liderada pelos Estados Unidos, no qual Pequim e Moscou operam como contrapesos estratégicos, fortalecendo atores regionais que compartilham interesses convergentes. Nesse cenário, o apoio militar e o fornecimento de insumos críticos, como combustíveis para mísseis, emergem como elementos centrais para compreender o papel sino-russo no fortalecimento das capacidades iranianas.

No que se refere ao apoio militar, evidências recentes apontam para uma intensificação da cooperação entre Irã, China e Rússia em múltiplos níveis. Segundo declarações de autoridades iranianas, ambos os países têm ampliado a cooperação militar com Teerã, incluindo transferência de tecnologia, treinamento e intercâmbio estratégico. Relatórios indicam que a Rússia, em particular, tem desempenhado um papel mais ativo no fornecimento de equipamentos militares e know-how, em parte como desdobramento de sua própria parceria com o Irã no contexto da guerra na Ucrânia. Já a China, embora mais cautelosa em termos de envolvimento direto, tem contribuído com suporte logístico e tecnológico, além de manter canais de cooperação militar que remontam a décadas. Essa atuação conjunta sugere não apenas uma convergência de interesses, mas também uma divisão funcional de papéis entre Moscou e Pequim no fortalecimento das capacidades defensivas e ofensivas iranianas.

Além disso, a cooperação militar sino-russa com o Irã deve ser compreendida à luz de um processo mais amplo de integração estratégica entre esses três países. Exercícios militares conjuntos, acordos de defesa e parcerias em tecnologias emergentes, como drones e sistemas de mísseis, reforçam a capacidade do Irã de projetar poder regionalmente. De acordo com análises recentes, essa cooperação tem permitido ao Irã contornar sanções internacionais e desenvolver uma base industrial militar mais autônoma. Ao mesmo tempo, Rússia e China se beneficiam ao fortalecer um aliado que atua como vetor de pressão contra interesses ocidentais no Oriente Médio, criando uma relação de interdependência estratégica que desafia o equilíbrio regional de poder.

No que tange ao envio de combustíveis para mísseis, esse aspecto revela uma dimensão menos visível, porém crucial, do apoio externo ao Irã. Investigações e análises recentes sugerem que tanto a China quanto a Rússia têm contribuído, direta ou indiretamente, para o fornecimento de componentes químicos e combustíveis necessários à propulsão de mísseis iranianos. Esses insumos, muitas vezes classificados como de uso dual (civil e militar), são fundamentais para a operacionalização de arsenais balísticos e têm sido objeto de monitoramento por parte de agências internacionais. A complexidade das cadeias de suprimento e o uso de intermediários dificultam a rastreabilidade dessas transferências, permitindo que tais fluxos ocorram à margem de regimes de sanções.

Ademais, o fornecimento desses combustíveis insere-se em uma estratégia mais ampla de sustentação da capacidade dissuasória iraniana. Ao garantir acesso contínuo a insumos críticos, China e Rússia contribuem para a manutenção e eventual expansão do programa de mísseis do Irã, considerado um dos mais avançados da região. Esse apoio, ainda que frequentemente indireto, tem implicações significativas para a segurança regional, uma vez que amplia o alcance e a eficácia das capacidades militares iranianas. Em um contexto de crescente instabilidade, o papel desses fluxos materiais torna-se essencial para compreender não apenas a resiliência do aparato militar iraniano, mas também a profundidade do engajamento sino-russo em dinâmicas de conflito contemporâneas.

O apoio da Rússia e da China ao Irã, no contexto do conflito com Israel e os Estados Unidos, ultrapassa a esfera diplomática, evidenciado não apenas pela condenação às ações militares e ao assassinato do líder supremo Khamenei, mas também por formas indiretas de cooperação estratégica. Buscando neutralizar os recursos ocidentais voltados à interceptação e à interferência eletrônica, Moscou e Pequim tornaram-se “âncoras tecnológicas” do Irã por fornecerem equipamentos militares pesados, tecnologias de imagem e satélite e radares de longa distância. 

A assistência russa direcionada ao Irã é explicada pelo histórico de colaboração bilateral em relação à energia nuclear e à indispensabilidade iraniana para o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul, que integra a Rússia aos mercados do Oceano Índico utilizando o Mar Cáspio e a infraestrutura ferroviária e portuária do Irã. Em janeiro de 2025, os dois países assinaram um Acordo de Parceria Estratégica Abrangente Irã-Rússia, como parte de uma iniciativa de incentivo à construção de uma ordem internacional multipolar, visando a coordenação conjunta nas áreas de defesa, inteligência, combate ao terrorismo, comércio, energia, finanças e demais setores econômicos. Em meio ao conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, a Rússia concentrou sua atuação em recursos de dissuasão estratégica, mediante a transferência do satélite Kanopus-V, para o monitoramento de bases norte-americanas e israelenses específicas; a entrega de caças Sukhoi Su-35, voltados à identificação de aeronaves de baixa observabilidade; a concessão de sistemas de defesa aérea contra ataques vindos do ocidente e, por fim, o fornecimento do radar Rezonans-NE para o rastreamento de alvos furtivos e mísseis balísticos de longa distância. 

Por sua vez, o envolvimento da China quanto ao Irã é motivado por questões econômicas e energéticas, em razão em virtude da posição estratégica do Irã, que possibilita uma alternativa terrestre à Nova Rota da Seda diante de gargalos marítimos, bem como das exportações de petróleo iraniano com descontos para a China. No ano de 2021, foi anunciada a assinatura de um pacto bilateral de cooperação estratégica, com duração de 25 anos, entre China e Irã, prevendo investimentos recíprocos nos setores de transporte, portos, energia, indústria e serviços. Para auxiliar a defesa iraniana, a China tem fornecido apoio em inteligência e orientação com vistas ao aprimoramento das capacidades de ataque de precisão de Teerã, por meio da concessão de acesso ao sistema de navegação chinês BeiDou-3, disponibilização de sinais militares criptografados de alta precisão, do compartilhamento de informações de satélite em tempo real, da exportação de mísseis supersônicos CM-302 e fornecimento de radares avançados anti-furtividade (YCL-8B). 

Na perspectiva chinesa, a queda do regime iraniano e a ascensão de um governo alinhado aos Estados Unidos representariam um obstáculo aos interesses da China na região, ao passo que o enfraquecimento do Irã no período pós-guerra implicaria um Teerã mais dependente. Além disso, Pequim observa o conflito como uma oportunidade para assumir o controle de Taiwan diante da focalização das ações dos Estados Unidos no Oriente Médio, criando vulnerabilidades na região do Indo Pacífico. Para a Rússia, beneficiária da guerra devido à alta dos preços do petróleo, a guerra constitui uma conveniência para amenizar a crise global de oferta, encaminhando para a maior receita russa relacionada a combustíveis desde 2022. Ademais, os esforços norte-americanos concentrados no Irã revelam uma menor participação dos Estados Unidos na Guerra da Ucrânia, o que atende aos interesses russos.


 
 
 

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