As Medidas de Xi Jinping contra Generais Chineses
- Mar 2
- 4 min read

Ao longo dos últimos anos, o governo chinês intensificou reformas no âmbito das Forças Armadas, atingindo oficiais de alta patente vinculados à Comissão Militar Central, órgão máximo de comando militar da República Popular da China. Entre as ações adotadas estiveram a destituição de oficiais generais de cargos estratégicos, a suspensão de funções e a abertura de investigações por “graves violações disciplinares”, formulação usualmente associada a acusações de corrupção. A imprensa internacional registrou a remoção de altos comandantes ligados à Força de Foguetes do Exército de Libertação Popular e a setores sensíveis de aquisição de armamentos, sinalizando um alcance significativo das medidas no núcleo da estrutura militar chinesa.
Além das demissões administrativas, autoridades partidárias anunciaram investigações conduzidas pela Comissão Central de Inspeção Disciplinar, órgão responsável pela fiscalização interna do Partido Comunista Chinês. Em alguns casos, parlamentares militares tiveram seus mandatos revogados no Congresso Nacional do Povo, etapa que frequentemente precede processos criminais formais. Observadores apontam que o caráter abrangente das medidas — incidindo sobre áreas estratégicas como mísseis, logística e desenvolvimento tecnológico — evidencia uma intervenção direta da liderança central na reorganização da cúpula militar, com possíveis impactos sobre a cadeia de comando e sobre o processo de modernização das forças armadas.
A justificativa oficial apresentada por autoridades e órgãos de imprensa estatais enquadra as medidas como parte da campanha permanente de combate à corrupção e de preservação da disciplina partidária nas forças armadas. Segundo comunicados divulgados por órgãos estatais, as investigações visam proteger a integridade institucional do Exército de Libertação Popular e garantir que oficiais cumpram rigorosamente as diretrizes do Partido. O discurso governamental sustenta que práticas corruptas comprometem a eficiência operacional, desviam recursos estratégicos e fragilizam a segurança nacional.
Contudo, análises de centros de pesquisa internacionais ressaltam que a narrativa anticorrupção cumpre também uma função política: reforçar a lealdade absoluta das forças armadas ao Partido Comunista e à liderança central. A tradição político-institucional chinesa estabelece que “o Partido comanda o fuzil”, e não o contrário — princípio reiterado pelo Presidente chinês Xi Jinping desde o início de seu governo. Nesse contexto, as medidas recentes são interpretadas não apenas como ações disciplinares, mas como instrumentos de consolidação de controle político e de reafirmação da autoridade da liderança sobre um setor historicamente sensível do aparato estatal.
Desde Mao Zedong não se observava tamanho grau de subordinação dos generais, de modo que as recentes decisões de Xi Jinping lhe conferiram um nível de controle praticamente incontestável sobre as forças armadas. O legado de Yan’an, relembrado por Xi na celebração do ano novo chinês, remonta à consolidação do Partido Comunista Chinês e à subjugação do Exército Popular da Libertação (EPL) em relação às instituições partidárias, diante do entendimento de que a autonomia dos comandantes militares é condicionada aos interesses do partido. Os generais, apesar de liderarem as tropas, devem preservar sua fidelidade ao Partido Comunista Chinês e contribuir para a perpetuação de sua autoridade estatal.
O EPL é considerado uma ferramenta de manutenção do poder que não encontra-se sob controle estatal ou constitucional, mas sim partidário. Assim, a herança leninista faz-se presente na política chinesa por meio da restrição da atuação política dos militares e da supressão de mobilizações das forças armadas contrárias à liderança do partido. Visando conter eventuais dissensos no aparato militar, o PCC combina a construção de uma unidade ideológica com a constante expurgação de indivíduos considerados opositores, levando à renovação do EPL.
Dois acontecimentos que representam bem o sufocamento de iniciativas insurgentes no estamento militar são o incidente de Lin Biao e o caso do General Xu Qinxian. Em 1971, perante as suspeitas de Mao Zedong de que seu Ministro de Defesa e sucessor da Revolução Cultural, Lin Biao, estivesse preparando um Golpe de Estado denominado de Projeto 571, a família de Lin fugiu em direção à União Soviética. Todavia, o avião nunca chegou ao seu destino em razão de uma queda na Mongólia que vitimou todos que estavam a bordo. O episódio foi interpretado pela cúpula do Partido como tentativa de usurpação militar da autoridade partidária e toda a influência de Lin no Exército Popular da Libertação foi expurgada. Já em 1989, recusando-se a reprimir manifestações pró-democráticas na Praça da Paz Celestial, Xu Qinxian foi destituído do comando do 38° Grupo de Exército e levado à corte marcial sob a alegação de que teria ameaçado a estabilidade do Partido ao sugerir a adoção de vias políticas formais, como a legislatura, para conter a crise. Com a conclusão do julgamento, Xu foi condenado a 5 anos de prisão.
As campanhas mais recentes de expurgos ganharam maior proeminência em 2022 e, desde então, aproximadamente 100 oficiais de alta patente foram afastados de suas funções ou desapareceram do cenário institucional. Os desligamentos constituem parte central dos preparativos chineses para lidar com conflitos externos mediante a eliminação de riscos no âmbito doméstico. O revigoramento do controle do Partido Comunista Chinês sobre o Exército de Libertação Popular faz-se necessário para a estruturação de uma força militar com capacidade de defender os interesses chineses do século XXI, sobretudo no tocante a Taiwan, e para a garantia de segurança pessoal absoluta de Xi Jinping.



















Comments