A Disputa pela Groenlândia
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A Groenlândia é considerada a maior ilha do mundo com uma extensão de aproximadamente 2,2 milhões de km². Embora faça parte do Reino da Dinamarca, a Groenlândia é um território autônomo, que possui autogoverno e Parlamento. A Lei de Autogoverno, aprovada em 1979 e revisada em 2009, concede à ilha autonomia na condução da política doméstica, ao passo que mantém o monarca da Dinamarca como chefe de Estado. Além disso, a versão de 2009 estabelece mudanças quanto à exploração dos recursos minerais no território, delegando a responsabilidade às autoridades do autogoverno.
Concentrando em suas mãos as atividades referentes à política externa, defesa e finanças da Groenlândia, a Dinamarca detém competência legal para bloquear investimentos na infraestrutura da Groenlândia por motivos de segurança nacional. Em 1985, o território groenlandês retirou-se da Comunidade Europeia e, posteriormente, ratificou um acordo de associação enquanto país e território ultramarino. Quanto à participação da ilha em organizações internacionais, a Groenlândia não é integrante direto da Organização do Tratado do Atlântico Norte, fazendo parte da aliança por intermédio da Dinamarca.
A presença de bases militares norte-americanas na ilha remonta ao final da Segunda Guerra Mundial, estabelecidas pelo Acordo relativo à Defesa da Groenlândia, assinado pelos Estados Unidos e Dinamarca. Na posição de fundadores da OTAN, os países reconheceram a possibilidade do reino dinamarquês precisar do auxílio de Washington quanto à defesa do território groenlandês, o que viabilizou a implementação de instalações militares na ilha.
Em janeiro de 2026, o presidente norte-americano Donald Trump intensificou a pressão para que a Groenlândia – território semiautônomo da Dinamarca – passe ao controle dos EUA. Trump reiterou que os EUA precisam da ilha por motivos de segurança e afirmou que os obterão “de um jeito ou de outro”. Ele argumenta que apenas os EUA poderiam defender a Groenlândia contra avanços de potências rivais: a ilha abriga a base aérea de Pituffik (antiga Base Aérea Thule), ponto-chave do sistema antimíssil dos EUA na região, além de vastas reservas minerais e petrolíferas. Trump chegou a declarar nas redes sociais que “os Estados Unidos precisam da Groenlândia para fins de segurança nacional, é vital para o Golden Dome [seu projeto de defesa antimíssil] que estamos construindo. Se não formos nós, Rússia ou China o farão”. Desse modo, sua justificativa oficial é que somente o controle americano garantirá a defesa da ilha no Ártico contra ameaças externas, especialmente russas e chinesas.
Para avançar com esse objetivo, Trump tem recorrido a medidas de pressão econômicas e diplomáticas. Em 17 de janeiro, por exemplo, ele anunciou tarifas de 10% (elevando a 25% em junho de 2026) sobre importações de oito países europeus (incluindo Dinamarca, Reino Unido, França, Alemanha, Suécia, Finlândia, Holanda e Noruega), mantendo-as até que haja “um acordo completo e total” de compra da Groenlândia. Essas sanções foram justificadas por Trump como retaliação ao envio de tropas aliadas europeias à região, afirmando ele que a presença de militares europeus na Groenlândia criou situação “muito perigosa” para a segurança global.
Trump também não descartou o uso da força militar (chegou a dizer que os EUA poderiam tomá-la “pela força”, se necessário), embora depois, num discurso em Davos em 21 de janeiro, tenha recuado: ali afirmou que não quer usar a força e pediu negociações imediatas sobre a aquisição. Ademais, formou uma equipe de negociação liderada pelo Vice-Presidente James David Vance e pelo Secretário de Estado Marco Rubio para tratar do tema diretamente com aliados. Assim, seus “meios” incluem coação comercial (tarifas), pressão diplomática (negociações forçadas) e, em tese, a ameaça ou o uso de poder militar – todos articulados sob a justificativa de uma suposta ameaça estratégica no Ártico.
Desde o final da década 1860, quando surgiu a primeira proposta de compra do território groenlandês pelos Estados Unidos, a Dinamarca se posiciona de forma contrária à ideia. A troca de terras voltou a ser sugerida pelo governo norte-americano em 1910 e 1946, enfrentando recusas do reino dinamarquês. Em 1951, as forças militares norte-americanas passaram a se estabelecer na ilha com o objetivo de implementar áreas para defesa do território, definidas nos termos do acordo firmado entre Washington e Copenhagen. Na Groenlândia, também encontram-se presentes bases militares dinamarquesas que têm como funções principais o monitoramento, a realização de operações de buscas e salvamento e defesa da soberania do território.
No seu primeiro mandato presidencial, Donald Trump retomou a apresentação de ofertas para comprar a Groenlândia, as quais encontraram oposição por parte do Reino da Dinamarca. Nos últimos tempos, todavia, os interesses de aquisição da ilha groenlandesa por parte dos Estados Unidos foram revividos, com a apresentação de propostas para obtenção da ilha que englobavam a compra direta, a influência na independência e a intervenção econômica e militar. Ainda assim, as unidades militares norte-americanas instaladas na Groenlândia são vistas como um meio pelo qual os EUA poderiam ocupar o território de modo a evitar a resistência militar. Além disso, são discutidas as possibilidades de adoção de um Pacto de Livre Associação entre os Estados Unidos e a Groenlândia, que prevê auxílio econômico e de defesa fornecidos por Washington para a ilha, diante da separação do território no Ártico e do reino dinamarquês.
Ao final do mês de janeiro de 2026, autoridades da Dinamarca e da Groenlândia reuniram-se com representantes dos Estados Unidos para tratar das tensões em torno do controle da ilha. Apesar dos poucos resultados divulgados, Trump assegura que os Estados Unidos alcançaram seus objetivos no território groenlandês “para sempre”, ao passo que a chancelaria dinamarquesa admitiu que não há resoluções para o impasse e, também, que a crise diplomática persiste embora tenha sido apaziguada. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, esclareceu que os trabalhos serão empreendidos em dois eixos: um relacionado à OTAN e outro centrado nas relações da Dinamarca e Groenlândia com os Estados Unidos. Cogita-se que os dois países integrantes da OTAN renegociem os termos do acordo de defesa de 1951.
A reação europeia foi de forte rejeição às pressões americanas. Em meados de janeiro de 2026, oito países da OTAN – Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia, Holanda, Reino Unido, França e Alemanha – enviaram pequenos contingentes (oficiais ou tropas de reconhecimento) à Groenlândia para o exercício conjunto “Arctic Endurance”, a convite de Copenhague. Esse envio simbólico de forças militares foi justamente o estopim usado por Trump para justificar as ameaças de tarifas. Em resposta, a União Europeia e seus principais Estados denunciaram a iniciativa de Trump como inaceitável. Em 18 de janeiro, em Bruxelas, em reunião emergencial, embaixadores europeus concordaram em intensificar esforços para dissuadir Trump e até preparar medidas retaliatórias – como um pacote de tarifas de €93 bilhões sobre produtos americanos ou a ativação do “instrumento anti-coerção” da UE.
Paralelamente, líderes europeus criticaram publicamente as ameaças de Trump. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chamou de “erro” a decisão de Trump e questionou sua credibilidade, lembrando o acordo comercial UE-EUA fechado em 2025 (“quando amigos apertam as mãos, isso deve significar algo”). Altas autoridades europeias qualificaram as tarifas anunciadas de “chantagem” e iniciaram um pacote de resposta, incluindo a suspensão temporária de tarifas de importação do aço e alumínio dos EUA e preparando retaliações proporcionais caso Trump prossiga; O presidente Emmanuel Macron reagiu duramente. Ele postou que “nenhuma intimidação ou ameaça nos influenciará” e chamou de “inaceitável” a imposição de tarifas sobre aliados. Macron afirmou que a UE está pronta para retaliar com sua poderosa “bazuca” comercial (instrumento de retaliação tarifária) se necessário. Em Berlim, o governo afirmou que vinha acompanhando os acontecimentos “em estreita coordenação” com os parceiros europeus. O porta-voz do Executivo alemão declarou que uma resposta conjunta será decidida “no momento apropriado”, sublinhando a necessidade de uma reação europeia unificada às ameaças americanas. O primeiro-ministro britânico Keir Starmer foi enfático em defender a soberania dinamarquesa. Ele declarou que a Groenlândia “faz parte do Reino da Dinamarca” e que qualquer decisão sobre seu futuro cabe “aos próprios groelandeses e aos dinamarqueses”. Starmer também criticou as tarifas de Trump como um erro grave, afirmando que aplicar impostos contra aliados que cooperam na segurança comum da OTAN era algo “completamente errado”.
Desse modo, em declaração conjunta, os oito países reafirmaram sua solidariedade plena à Dinamarca e ao povo da Groenlândia, ressaltando que pretendem dialogar sobre a segurança do Ártico “com base nos princípios de soberania e integridade territorial”. O documento conjunto ressaltou que as ameaças de tarifas minam a confiança transatlântica e podem provocar uma “espiral perigosa” nas relações EUA–Europa.



















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