Preocupação ou Antecipação? A Política Externa Chinesa como uma “Nova Muralha” em Construção

A partir de 2020, a China iniciou uma série de medidas que, em termos de consistência e escala, não encontram precedentes desde a década de 1970. Diversas ações governamentais documentadas inserem-se nesse escopo, como a elaboração de um programa de realocação de indústrias estratégicas para o interior com o propósito de criar um “hinterland estratégico”; criação de grandes projetos de defesa civil e de resiliência da infraestrutura urbana; adoção de medidas para fortalecer a resiliência do sistema energético nacional e a construção urgente de reservas de alimentos e matérias-primas. As ações chinesas não necessariamente indicam uma intenção de iniciar um conflito militar de larga escala, mas certamente demonstram que o governo chinês considera tal conflito como bastante provável e talvez inevitável, por volta das décadas de 2020 ou 2030.
O termo “hinterland estratégico” foi oficialmente adotado pelo presidente Xi Jinping durante uma viagem de inspeção à Província de Sichuan, em 2023. Xi notou que a província tinha como característica fundamental o fato de possuir uma “importante e singular posição no desenvolvimento nacional e dentro da Grande Estratégia ocidental de desenvolvimento”. Esse status impõe uma série de obrigações à província, como garantir a produção, o fornecimento de energia, a cadeia de suprimentos e a segurança alimentar. Desse modo, as regiões de Sichuan e Chongqing têm sido incumbidas de construir uma estratégia nacional de recursos e indústria.
Em documentos subsequentes, o “hinterland estratégico” foi ligado mais estritamente à segurança industrial. Em 2024, uma resolução adotada na Terceira Sessão Plenária do Vigésimo Comitê Central do PCC (Partido Comunista Chinês) mencionou pela primeira vez a necessidade de “construir um hinterland estratégico e a capacidade de reserva de indústrias-chave”. Essa frase se tornou uma expressão fixa e significa aumentar a segurança da produção e da cadeia de distribuição, criando um sistema de prevenção e avaliação de riscos, transferindo indústrias-chave para o coração do país a fim de assegurar resiliência e desenvolver as reservas de recursos naturais do país. Esses setores-chave incluem circuitos integrados, equipamento médico, software básico e industrial e materiais avançados.
Em primeiro lugar, esses planos de desenvolvimento de hinterland estratégico visam ampliar a capacidade de linhas produtivas-chave para mudar rapidamente da operação de tempos de paz para a operação de emergência. Em segundo lugar, tem-se a pretensão de desenvolver corredores estratégicos – como o Yangtze Golden Waterway, o Novo Corredor Comercial Terrestre-marítimo, além de rotas para a Ásia Central e Europa – para integrar as regiões do interior do país no âmbito de redes de transporte nacionais e trans-eurasianas. Por fim, os planos possuem o objetivo de criar reservas energéticas e de recursos no hinterland estratégico, tais como infraestrutura para estoque e processamento de carvão, gás natural, lítio e metais de terras raras.
Adicionalmente, os planos de mobilização chineses mencionam a criação de “bases de apoio industriais”, frequentemente referindo-se à província de Guizhou, onde os recursos energéticos, minerais, equipamentos-chave e big data são armazenados. Outra prioridade central do governo chinês diz respeito ao reconhecimento e à otimização do sistema de gestão das reservas estratégicas, com diversas leis sendo adotadas com essa finalidade. O objetivo principal é formar um modelo de gestão estável multinível que envolva a criação de equipes emergenciais profissionais, o estabelecimento de postos de comando padrão e a unificação de medidas de resposta a depender do nível e do tipo da emergência.
No plano de desenvolvimento tecnológico do sistema de mobilização, a versatilidade torna-se essencial para uma estratégia de sucesso em casos de emergência ou conflito. Inspiradas na resiliência infraestrutural da Operação Militar Especial da Rússia, as cidades e províncias chinesas têm implementado programas de desenvolvimento infraestrutural para mobilizar a economia e a defesa aérea da China, a partir de uma base tecnológica modernizada. A estratégia envolve o aprimoramento da defesa civil e do sistema de alertas, a fim de promover uma segurança urbana mais integrada, além de proteger as instalações econômicas críticas à segurança chinesa. Nesse contexto, um dos únicos documentos disponíveis ao público sobre o desenvolvimento da defesa aérea do país, o “Plano Chongqing para o 14º Período Quinquenal”, prevê a implementação de um sistema de proteção em quatro diferentes níveis: proteção do centro, que inclui a máquina estatal; proteção da vida, ou seja, cuidados com a população, sejam eles médicos ou planos de evacuação; proteção das capacidades, tanto econômicas, quanto militares; e, por fim, a proteção da operação, que abarca toda a sua infraestrutura.
O novo sistema de defesa civil deve ser, portanto, versátil, no intuito de permitir a conversão imediata da infraestrutura civil para as necessidades militares ou emergenciais do momento. Muitos desses sistemas já foram implementados e são baseados num sistema emergencial de comunicação por comando, garantindo uma rápida comunicação até mesmo em casos de danos parciais à infraestrutura. A criação dessa infraestrutura de uso dual facilitaria o processo de transformar instalações públicas — a exemplo de estádios e escolas — em hospitais e acomodações temporárias, ou até mesmo em centros de distribuição de suplementos.
Para além do âmbito da infraestrutura, entre 2024 e 2025, a China iniciou um processo de adaptação da legislação chinesa para conjunturas emergenciais. As novas leis devem funcionar como uma forma de reconhecimento aos soldados abatidos nos possíveis conflitos, como seria o caso das “Medidas para o Reconhecimento dos Heróis Falecidos”, estabelecidas em 2025, a fim de honrar o seu serviço por meio da manutenção e proteção de seus memoriais, bem como garantir os direitos da família dos soldados a benefícios concedidos pelo governo. Os casos devem ser supervisionados pelo Departamento de Trabalho Político da Comissão Militar Central e pelo Ministério de Gerenciamento de Emergências, assegurando um sistema de respostas mais rápidas às informações acerca das fatalidades ocorridas na linha de frente. Dessa forma, essas regulamentações criam um mecanismo de processamento de aplicações em massa para tais casos, de maneira sistemática e menos burocrática.
Quanto à segurança alimentar em situações de crise, desde o início dos anos de 2020 a China tem fortalecido seus requisitos para o complexo agro-industrial e para as autoridades locais nesse sentido. Com investimentos pesados na construção de autossuficiência em termos de alimentos básicos, sementes e maquinário de agricultura — promovendo o processo de substituição das importações de ambos pelo produto nacional —, além de aumentar a sua capacidade de produção e armazenamento, a China tem priorizado a proteção de terras aráveis, a produção estável de plantações de grãos e o gerenciamento das reservas nacionais. Isso tudo amparado pela Lei de Segurança Alimentar Nacional, de 2023, que cobre o sistema de segurança alimentar por completo.
A acumulação e a redistribuição estratégica das reservas desses alimentos e de fertilizantes também entram como fator determinante no planejamento para situações emergenciais. Algumas medidas inclusive acabam indo de encontro com algumas políticas prioritárias agro-industriais de longa data da China, privilegiando produtores de fertilizantes, que enfrentam menores restrições na emissão de gases de efeito estufa em relação a outras indústrias.
Todo esse planejamento não se dá de forma arbitrária, mas trata-se do resultado de uma série de mudanças graduais que vêm se desenrolando no sistema internacional e que podem representar uma ameaça à estabilidade econômica chinesa — como o conflito Rússia-Ucrânia e a guerra EUA-Israel contra o Irã. Dessa forma, a pressão exercida sobre a China apenas tende a aumentar, impulsionando-a a se preparar para uma possível disrupção no comércio internacional de alimentos e de recursos tecnológicos no caso de agravamento desses conflitos ou pelo surgimento de outros novos. Os dados já apontam para o aumento de estoques de recursos, pois até 2024 a China havia excedido 1,8 bilhões de barris de petróleo armazenados, equivalente a 130% da capacidade dos EUA. Além disso , apesar das promessas de reduzir o consumo de carvão mineral depois de 2026, não foram observados avanços significativos.
Em meio a um panorama de incertezas, a construção da “Nova Muralha” chinesa tem se manifestado a partir de uma política externa que se preocupa fortemente em se preparar para qualquer ameaça que lhe for lançada, seja ela regional — exemplificada pelas tensões históricas com Taiwan — ou global. O governo chinês não mede os gastos quando se trata do desenvolvimento de uma fortaleza resiliente que proteja a sua soberania até mesmo contra um possível conflito nuclear, adotando, assim, uma política de mobilização que prioriza planejamento urbano, energia, agricultura e indústrias de alta tecnologia. Além de evitar que o seu território possa ser sequer tocado por possíveis guerras, a política garante à China poder de escolha no que tange ao momento e à dimensão de sua participação nas relações internacionais.
Escrito por: Nicole Vidal de Negreiros e Luísa Tejo















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