Rússia e China Ampliam suas Relações ao Assinarem 40 Acordos de Cooperação em Pequim
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Enquanto a China e os Estados Unidos enfrentam dificuldades para conciliar seus interesses no âmbito do comércio internacional, as relações bilaterais entre o “gigante asiático” e a Rússia, por sua vez, parecem caminhar na direção de uma parceria muito bem consolidada, despertando o interesse dos atores globais pela amplitude do seu escopo. A Cimeira Putin-Xi, realizada no dia 20 de maio, representou um marco para os laços Rússia-China, em meio à comemoração dos 25 anos desde o primeiro tratado assinado entre os países em 2001. A visita de Putin à Pequim veio logo depois da conferência realizada entre Trump e Xi na China, para tratar de questões complexas como a ilha de Taiwan.
Em clima de cooperação, a cimeira tornou-se um ambiente propício para aprofundar o vínculo. Foram assinados cerca de 40 acordos bilaterais, que abrangem as esferas de energia, inteligência artificial e inovação tecnológica, comércio, finanças e infraestrutura, a fim de promover um alinhamento entre as agendas de desenvolvimento de ambos os países. Nesse sentido, o presidente Vladimir Putin afirmou que as conversas foram bastante construtivas, centrando os argumentos favoráveis aos acordos no “aprofundamento da cooperação econômica” entre Rússia e China. Em conformidade com Putin, Xi declarou que as relações da China-Rússia “alcançaram um novo marco” com essa reunião, revelando o alto potencial da cooperação para a prosperidade econômica mútua.
Em termos de relação comercial, percebe-se uma tendência crescente nas trocas entre esses países, tendo excedido US$240 bilhões no ano passado, enquanto que só nos primeiros quatro meses de 2026 já se expandiu em 20%. A China permanece como o maior parceiro de comércio da Rússia, considerando um histórico de 16 anos de parceria, que envolve a exportação de energia, matérias-primas e produtos agrícolas de Moscou, ao mesmo tempo que crescem as importações de maquinários, veículos, eletrônicos e bens de consumo chineses na Rússia.
A aproximação mostra-se imperativa para a estabilidade econômica russa, tendo em vista a sequência de sanções que lhes foram impostas pelas potências ocidentais desde o início da guerra russo-ucraniana, que impedem uma interdependência efetiva em relação a esses países, principalmente na frente tecnológica. Além disso, as vantagens energéticas oferecidas à China a partir da importação de petróleo e gás natural da Rússia têm aumentado rapidamente devido a dois fatores essenciais. O primeiro diz respeito ao lançamento do gasoduto “Força da Sibéria” em 2019, que contribuiu para uma expansão significativa na exportação de gás para a China, e o segundo refere-se à declaração de parceria “sem limites” entre os dois países, realizada ainda em 2022.
Vale destacar também que a integração financeira russa-chinesa tem causado certo alarde em meio à Europa e aos EUA, haja vista a redução do uso de moedas ocidentais nas trocas e transações bilaterais como consequência dessa integração, que ameaça a hegemonia financeira do dólar e a relevância do euro. Moscou afirma que essa decisão representa a formação de uma frente mais resiliente em oposição às pressões externas e sanções impostas pelas potências do Ocidente. Além disso, Pequim tem reduzido suas reservas de títulos norte-americanos, com vistas a buscar maior autonomia financeira em relação a Washington.
O fortalecimento da parceria vai além da simples ação bilateral, visto que surge como fruto de uma coordenação promovida em meio a outros atores do sistema internacional. Nesse caso, o BRICS, a Organização de Cooperação de Shanghai, o G20 e o Conselho de Segurança da ONU também exercem um papel crucial no crescimento da rede de projetos multilaterais de cooperação, que prometem proteger esses países de pressões externas, colaborando para a construção de uma ordem internacional multipolar.
O discurso da multipolaridade mostrou-se bastante presente na conferência do dia 20 de maio entre Putin e Xi, sendo materializado por meio de uma declaração conjunta assinada pelas potências russa e chinesa na ocasião. O documento reafirma o compromisso dos dois países em zelar por uma balança de poder global estável e pelo aprimoramento das relações em meio ao sistema internacional, guiados pelos ideais apresentados historicamente nas últimas declarações conjuntas emitidas pela parceria Rússia-China.
Frente a isso, a Rússia e a China reconhecem a importante influência dos Estados emergentes e em desenvolvimento, indo de encontro à posição hegemônica ocidental ao privilegiar uma visão policêntrica de sistema em face dos perigos da fragmentação internacional. Em complemento, a Rússia e a China condenam veementemente os recentes ataques promovidos pelos EUA e por Israel ao Irã como violações do direito internacional que ameaçam a estabilidade no Oriente Médio.
A declaração, portanto, chama a atenção ao reivindicar um “sistema de governança global mais racional” a partir de quatro princípios fundamentais que devem ser aderidos por toda a comunidade internacional: abertura do mundo à cooperação inclusiva e mutuamente benéfica; indivisibilidade e segurança equitativa; democratização das relações internacionais e aprimoramento do sistema de governança global; e a diversidade dos valores e civilizações mundiais. Esses princípios, segundo o documento, servem para garantir um novo tipo de ordem e relacionamento entre os países, no intuito de garantir uma agenda global voltada ao desenvolvimento e à paz, a partir da multipolaridade.
Na tentativa de estabelecer relações internacionais pautadas na justiça, no respeito, na equidade e na cooperação mutuamente benéfica, percebe-se um contraste entre a relação Moscou-Pequim e aquela existente entre os EUA e a potência chinesa. Isso porque os Estados Unidos tendem a priorizar uma negociação sempre fundamentada na disputa entre forças, ao contrário da Rússia, que assume uma postura de igualdade e respeito ao dialogar com a China. Dessa forma, a constante sede norte-americana por hegemonia torna-se o maior entrave para possíveis avanços nas negociações com Pequim, tanto em termos de comércio quanto de desenvolvimento conjunto.
A superação da “cerca ocidental” tem se tornado, assim, prioridade na agenda de discussões entre Rússia e China, que além de serem beneficiados mutuamente com os acordos firmados, contagiam as outras potências emergentes com seu espírito de cooperação. O temor dos EUA relativo ao crescente poder do bloco dos BRICS no sistema internacional não parece, a partir desse momento, tão descabido, ao considerar-se os riscos relativos à perda de sua hegemonia para aqueles países sobre os quais, anteriormente, impunha suas vontades com maior “facilidade”.
No início de maio, o presidente da República Popular da China, Xi Jinping, realizou uma visita a Moscou a convite do presidente russo, Vladimir Putin, no contexto das celebrações do 80º aniversário da vitória na Segunda Guerra Mundial. Dias depois, Putin foi convidado a Pequim por Xi e os resultados dessas visitas diplomáticas representaram um importante recado político ao mundo, sobretudo aos Estados Unidos.
Em uma declaração conjunta sobre estabilidade estratégica global, China e Rússia afirmam que os Estados devem rejeitar o que chamam de “mentalidade da Guerra Fria e jogos de soma zero”, buscando a “resolução de contradições por meio do diálogo.” Pequim e Moscou compartilham preocupações em torno do “Golden Dome for America”, um escudo antimísseis dos EUA inspirado no Domo de Ferro de Israel que envolve o uso de satélites capazes de interceptar mísseis do espaço. De acordo com a declaração, o projeto de Donald Trump “transforma o espaço exterior em um ambiente para colocação de armas e uma arena para confrontos armados”. A percepção sino-russa, segundo especialistas, é que esse projeto representa uma ameaça ao equilíbrio nuclear entre as potências.
China e Rússia também pretendem ampliar sua cooperação em tecnologias militares e inteligência artificial, em um contexto de disputa tecnológica sino-americana. Além disso, os países criticaram as recentes atuações norte-americanas no plano internacional e declararam seu comprometimento com “uma política externa independente e soberana” , desempenhando um importante papel estabilizador no cenário global” como “potências mundiais responsáveis”.
Este ano marca o 30° aniversário da parceria e interação estratégica entre China e Rússia e os 25 anos do Tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação entre os países. Mas suas relações são muito mais baseadas em um alinhamento pragmático do que em uma aliança plena. Os países compartilham geografia, oposição à hegemonia ocidental e uma agenda estratégica parcialmente sobreposta, mas a parceria tem seus limites. A excessiva dependência de energia russa causa preocupação a Pequim, e suas ambições globais mais amplas continuam a impor limites ao alcance da evolução das relações.
China e Rússia compartilham uma das maiores fronteiras terrestres do mundo, com cerca de 4.300 km, e ocupam o mesmo espaço estratégico euroasiático, o que torna os custos de hostilidades prolongadas significativamente altos. A lógica geográfica é ainda mais relevante com a polarização do sistema internacional, num contexto em que Pequim e Moscou percebem a importância de coordenar ações contra a hegemonia ocidental. Para a Rússia, a China é uma saída do isolamento e uma possibilidade de manter relevância geopolítica em um momento em que as relações russas com o Ocidente permanecem profundamente prejudicadas.
Desde o início da Guerra na Ucrânia, a China tem fornecido à Rússia importantes recursos econômicos, além de ter expandido o comércio bilateral, aumentado as compras de gás e petróleo russos e mantido intercâmbios tecnológicos e industriais — tensionando, com isso, as suas relações com a Europa. Por sua vez, a Rússia ofereceu à China fornecimento de energia com desconto, cooperação militar e apoio diplomático em questões como Taiwan e críticas às intenções da OTAN na Ásia.
Com a redução das importações de energia russa para a Europa, a China tornou-se o cliente de energia mais importante da Rússia a longo prazo. Mas Pequim aborda as relações de troca com cautela, aproveitando-se da posição de negociação enfraquecida da Rússia para exigir preços e condições de fornecimento favoráveis. Os formuladores de políticas chineses passaram anos diversificando as fontes de energia no Oriente Médio, na Ásia Central e nos mercados globais de GNL a fim de evitar a dependência geoenergética. Dessa forma, Pequim entende que depender excessivamente de um único fornecedor suscita vulnerabilidades, e mesmo suas relações estáveis com a Rússia não amenizam o risco estratégico desnecessário.
Além disso, China e Rússia não compartilham todas as suas prioridades geopolíticas. Embora ambas busquem desafiar a hegemonia norte-americana, Pequim permanece mais profundamente integrada à economia global e os custos das instabilidades prolongadas são muito maiores do que para Moscou. A China busca influência política por meio da interdependência controlada com seus parceiros comerciais e rivais, já a Rússia quer obter vantagem através da exploração de pontos críticos de tensão globais.
Assim, em um momento em que os Estados Unidos parecem cada vez mais deixar para trás o modelo de ordem liberal internacional que eles mesmos criaram, China e Rússia despontam como potências alternativas a partir de uma retórica que estrategicamente resgata o multilateralismo e a estabilidade. Mas a parceria sino-russa não se define em termos de aliança perene: há um cálculo cuidadoso por trás da cooperação entre os países primordialmente preocupados com suas próprias autonomias e riscos de vulnerabilidade.











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