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Reaproximação ou Ruptura? Encontro entre Putin e Pashinyan Expõe Fragilidade da Aliança Rússia-Armênia

  • Apr 13
  • 5 min read

No recente encontro entre Vladimir Putin e Nikol Pashinyan, reiterou-se a incompatibilidade entre a eventual integração da Armênia à União Europeia (UE) e sua permanência na União Econômica Eurasiática (UEEA). Como Putin destacou, Yerevan “está desenvolvendo relações com a União Europeia e isso não nos preocupa, mas é obviamente impossível ser membro ao mesmo tempo da UE e da UEEA”. Pashinyan reconheceu essa incompatibilidade, admitindo que, no momento, tenta conciliar os dois eixos, combinando sua participação na UEEA ao mesmo tempo em que desenvolve cooperação com a UE. 

Na prática, a Armênia usufrui, atualmente, de benefícios econômicos significativos no âmbito da União Econômica Eurasiática (UEEA). Por exemplo, a Rússia fornece gás natural à Armênia por cerca de US$177,50 por 1.000 m³, ante preços europeus acima de US$600 por 1.000 m³. Além disso, segundo dados oficiais, as exportações armênias aos países da UEEA cresceram cerca de 12,5 vezes desde 2015, enquanto as exportações para a UE aumentaram apenas 1,5 vez no mesmo período. Esses números ilustram a forte integração comercial atual da Armênia ao espaço econômico liderado por Moscou, em contraste com ganhos muito menores nos mercados europeu e americano.

Uma eventual mudança de rumo em direção à UE teria, porém, custos econômicos consideráveis. Especialistas alertam que  a saída da UEEA e o afastamento do mercado russo trariam severas consequências econômicas e sociais que nem mesmo o apoio da União Europeia poderia compensar. No momento, a Armênia busca manter os subsídios energéticos provenientes da Rússia.  O ministro da Economia armênio, Gevorg Papoyan, afirmou que o preço do gás russo dificilmente aumentará, uma vez que a Armênia desempenha papel relevante para a UEEA. Autoridades armênias advertiram que, se Moscou decidisse elevar tarifas, a Armênia poderia retirar-se da UEEA (e até da Organização de Tratado de Segurança Coletiva) – ainda que insistentemente descartem que esse cenário se concretize. Desse modo, o dilema reside no fato de que, sem um acordo de livre comércio com a União Europeia, a Armênia permanece fortemente dependente de seus vínculos com a Rússia. Integrar-se plenamente à UE significaria perder o regime preferencial atual de energia e comércio – o que, segundo dados comerciais, tem beneficiado concretamente a economia armênia. Por ora, a Armênia mantém o alinhamento eurasiático enquanto explora a cooperação com Bruxelas, ciente de que, no futuro, cidadãos armênios terão de decidir qual caminho seguir.

O presidente do parlamento armênio, Alen Simonyan, por outro lado, afirmou que a Armênia deixará a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) e a União Econômica Eurasiática (UEE) caso a Rússia aumente o preço do gás fornecido ao país. Contudo, ele acrescentou não acreditar que seria necessário tomar essa medida, já que o primeiro-ministro da Armênia e o presidente da Rússia tiveram uma conversa muito produtiva.

No que diz respeito a OTSC, ela consiste em uma aliança militar intergovernamental composta por algumas ex-repúblicas soviéticas, criada em 1992 e liderada pela Rússia. A organização tem como objetivo garantir a estabilidade regional, a coordenação político-militar, e o princípio da defesa coletiva. De maneira similar ao proposto pela OTAN, também está previsto no OTSC o princípio da defesa coletiva. Assim, espera-se que todos os membros prestem assistência militar ao outro em caso de agressão externa, já que se considera um ataque contra um Estado-membro como um ataque contra todos. 

Tendo isso em vista, é possível entender as ressalvas da Armênia em relação à sua permanência no OTSC. As principais críticas da Armênia à OTSC se baseiam na sua incapacidade de manter a segurança coletiva. Pelo ponto de vista armênio, a organização falhou  em momentos cruciais do conflito com o Azerbaijão, em 2022, quando ataques transfronteiriços ocorreram em território armênio reconhecido. Dessa maneira, a Armênia invocou o Artigo 4º da Organização do Tratado de Segurança Coletiva na expectativa de obter apoio militar, mas recebeu apenas respostas diplomáticas. A OTSC, por sua vez, rejeitou intervir diretamente e enviou somente uma missão de observação. A ruptura se aprofundou ainda mais em 2023, quando o Azerbaijão lançou uma ofensiva em Nagorno-Karabakh e, mesmo com tropas de paz na região, a Rússia não interveio. A inação russa  contribuiu para a ocupação do território e provocou o deslocamento forçado de mais de 100 mil armênios étnicos.

Diante desse cenário, a Armênia  passou a compreender que não podia mais depender da Rússia para a garantia de sua segurança. Assim, o primeiro-ministro Nikol Pashinyan declarou a aliança insuficiente e passou a buscar maior aproximação com o Ocidente. Entende-se que a ausência de resposta da OTSC facilitou a ação do Azerbaijão e acelerou o afastamento armênio de Moscou. A Armênia, ainda, suspendeu sua participação na OTSC desde 2024 e parou de pagar as contribuições à organização. Formalmente, a Armênia não se retirou, embora Pashinyan tenha declarado em dezembro de 2024 que, essencialmente, já se consideravam fora da OTSC.

No que diz respeito ao seu posicionamento sobre a falta de ação no conflito da Armênia com o Azerbaijão, Putin afirmou que a aliança não tinha obrigação de intervir em Nagorno-Karabakh, pois sua função é proteger Estados-membros contra agressões externas, o que não ocorreu diretamente contra a Armênia. Ele destacou que a própria Armênia não reconhecia Karabakh como parte de seu território, o que reforça a ausência de base legal para ação da OTSC. Apesar das tensões e da ausência simbólica armênia da organização, Putin declarou que o país não saiu oficialmente da aliança e pode retomar sua participação plena, ressaltando também que cada Estado tem o direito de definir sua própria política de segurança. Contudo, o presidente russo alertou que a aproximação da Armênia com a União Europeia representa um risco real para a Armênia de uma ruptura com a integração euroasiática. 

Tal cenário também é refletido nas eleições parlamentares de 2026, que marcam o primeiro pleito regular desde 2017. Esse período foi marcado por crises políticas e significativos impactos da guerra ocorrida em 2020 com o Azerbaijão e os conflitos que se escalaram nos anos seguintes. A disputa é marcada pela polarização entre o governo de Nikol Pashinyan e as elites tradicionais, além de visões divergentes sobre segurança e política externa. O cenário político é altamente polarizado, com oposição ligada a antigos líderes e novos atores. A política externa é tema central: a sociedade divide-se entre alinhamento com o Ocidente, com a Rússia ou uma posição equilibrada. Esse debate se intensifica no contexto recente de tensões com Moscou e do encontro entre Putin e Pashinyan, que evidencia a redefinição das relações bilaterais e influenciam diretamente o debate eleitoral.

Assim, as eleições de 2026 serão decisivas para testar a estabilidade democrática da Armênia e definir seu posicionamento geopolítico, especialmente diante do equilíbrio entre Rússia e Ocidente.


 
 
 

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