A Lacuna na Oferta Global de Fertilizantes: Por Que o Conflito entre EUA, Israel e Irã Agrava a Fome Mundial?
- May 8
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O desenrolar das tensões no Oriente Médio ao longo do último mês, diante do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã têm desembocado em questões que vão além de custos militares. Tendo em vista o bloqueio do Estreito de Ormuz imposto pelo governo iraniano e agravado pelo bloqueio naval estadunidense no mesmo local, o estrangulamento das rotas marítimas do Golfo Pérsico para o transporte de petróleo, gás natural e fertilizantes se transformou em uma barreira às cadeias de suprimento globais de produção agrícola. Com as restrições impostas no Estreito, forma-se uma “rachadura” na economia mundial que põe em evidência a pauta da insegurança alimentar, graças ao movimento inflacionário que aponta para uma tendência crescente nos preços dos alimentos em escala global.
À medida que os choques geopolíticos na região continuam, os prejuízos não se restringem apenas ao transporte limitado desses alimentos, minando principalmente a oferta mundial de fertilizantes essenciais ao cultivo de commodities agrícolas. Nesse sentido, a guerra com o Irã impacta negativamente a produtividade do setor agrícola, levando em consideração a demanda global por dois fertilizantes imprescindíveis nesse processo: o nitrogênio e o fosfato. Existentes em abundância na região do Golfo Pérsico, o bloqueio do Estreito de Ormuz impede a passagem de grande parte desses produtos, visto que em 2024 até 30% do comércio global de fertilizantes atravessaram o estreito para viabilizar a sua exportação ao resto do mundo.
Segundo dados da International Food Policy Research Institute, os países do Golfo Pérsico representam o maior polo regional exportador de ureia e amônia — ambos formados a partir do nitrogênio — e o segundo maior exportador de fosfato diamônico. Além disso, a região do Golfo lidera a exportação de gás natural liquefeito (GNL), viabilizando a produção de fertilizantes em outros países que carecem desse recurso em seu território, como são os casos da Índia, Bangladesh, Paquistão e Turquia. Isso significa que a redução na oferta desse gás, causada por ataques ou bloqueios aos países produtores, desestabiliza o mercado mundial de fertilizantes, visto que o GNL é usado como fonte de energia primária para a obtenção de amônia, utilizada na maioria dos fertilizantes nitrogenados.
Por ser transportado predominantemente em forma de GNL, o gás natural depende das vias marítimas para a comercialização em âmbito global. No entanto, devido ao atual bloqueio de Ormuz, a interrupção das exportações por parte dos países da região — em especial do Qatar, que fechou suas usinas de gás natural após ataques iranianos — prejudica principalmente aqueles países fortemente dependentes do gás advindo do Golfo, a exemplo da Índia, que anunciou a redução da sua produção de fertilizantes, além de tentar compensá-la por meio de subsídios em favor dos agricultores enquanto as hostilidades não cessam. A própria OMC afirma que “os fertilizantes são a fonte de preocupação nº 1 hoje”.
A vulnerabilidade tem se tornado mais evidente nos países do Sul da Ásia e da África, que importam componentes críticos para a produção de fertilizantes, como acontece com a amônia, a ureia e o fosfato. A amônia e o fosfato são majoritariamente exportados pela Arábia Saudita. Enquanto isso, o Irã e o Qatar lideram com 36% das exportações de ureia no mercado global, sendo a Índia e a África do Sul dois de seus principais importadores. No caso dos países africanos, a vulnerabilidade se revela em meio a uma considerável expansão da produção interna de fertilizantes, mas que é voltada em grande parte para a exportação. Dessa forma, o consumo interno, ainda largamente dependente da importação, fica submisso à volatilidade de preços do mercado internacional.
Nesse contexto, as disrupções geradas na cadeia global pelo conflito, assim como ocorreu na crise de 2022 — gerada pela guerra entre Rússia e Ucrânia —, seguidas pelo aumento significativo nos preços dos fertilizantes, impactam primordialmente os países que dependem dessa produção para manter a sua produção agrícola nacional estável, ou seja, os países mais pobres. A alta de 60% no preço da ureia ao longo do último mês, de acordo com o Grupo CRU, prova que, a longo prazo, esse cenário pode se tornar insustentável, assustando os agricultores e reduzindo o poder de compra dos consumidores dos alimentos produzidos. Logo, limitar a travessia de Ormuz por muito mais tempo significa também negar, progressivamente, a segurança alimentar a uma parcela considerável da população mundial.
Enquanto isso, os Estados Unidos, produtor de 65% dos fertilizantes consumidos domesticamente, têm procurado apenas minimizar os impactos econômicos do conflito por meio do afrouxamento de sanções direcionadas a empresas bielorrussas produtoras de potassa, à medida que trata-se de um componente imprescindível à produção de fertilizantes. Além disso, o país suspendeu sanções ao petróleo russo, na tentativa de frear aumentos de preços atrelados ao conflito.
Não obstante, o caso da Guerra da Ucrânia mostrou que novas rotas podem surgir em casos de crise, o que já tem ocorrido no sentido de uso de energias alternativas para substituir o gás natural na produção de fertilizantes, como por meio do carvão mineral. Contudo, à medida que os países aumentam o consumo e a queima de carvão nesse processo, surgem novos problemas associados ao aumento da sua pegada de carbono, contribuindo para o agravamento das mudanças climáticas.
Imperativamente, a estabilização do mercado de fertilizantes diante desse sexto grande choque desde a pandemia de COVID-19 em 2020 depende da redução das hostilidades entre EUA, Israel e Irã. O foco agora tende a ser o de priorizar a exportação estratégica de fertilizantes com fins humanitários, no intuito de garantir a segurança alimentar dos cidadãos dos países mais pobres e dependentes dos insumos capazes de produzir fertilizantes críticos a uma produção agrícola estável.
Embora os sistemas alimentares tenham demonstrado uma relativa recuperação desde as perturbações decorrentes da pandemia de COVID-19 e da Guerra da Ucrânia, o atual conflito entre o Irã e os Estados Unidos aponta novos riscos à segurança alimentar global, em especial devido aos impactos no mercado de fertilizantes, cuja oferta e cadeias de abastecimento influenciam acentuadamente a produção agrícola e a inflação dos alimentos.
Enquanto os preços dos fertilizantes tendem a se elevar, os preços internacionais das commodities estão reduzindo, engendrando uma relação desfavorável entre os preços da produção e dos insumos, o que normalmente diminui o uso de fertilizantes, que, por sua vez, reduz a produção agrícola. O aumento prolongado nos preços de fertilizantes pode afetar especialmente culturas com alta dependência de nitrogênio, levando a acentuadas elevações dos preços desses produtos alimentícios. Os mercados de fertilizantes e energia são inelásticos, de modo que os preços podem se elevar muito mais do que as variações no volume comercializado indicam. Se os agricultores produzirem com menos insumos, haverá rendimentos menores para o fim deste ano e 2027, com elevação dos preços alimentícios e inflação no varejo de alimentos provavelmente para os próximos anos.
Publicações recentes da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Programa Mundial de Alimentos (PMA) emitiram um alerta para o potencial agravamento da fome mundial devido às hostilidades entre o Irã e os Estados Unidos. Há uma ínfima relação entre os mercados mundiais de energia e de alimentos, o que significa que as instabilidades do primeiro são repassadas ao segundo, afetando a oferta de alimentos e, consequentemente, seu preço. O PMA alerta que, se o conflito não terminar até meados do ano e o preço do petróleo permanecer acima de US$ 100 por barril, 45 milhões de pessoas a mais poderão enfrentar fome ao redor do mundo.
Além do setor energético, a importância dos fertilizantes para a agricultura contemporânea também indica um fator de risco para a segurança alimentar mundial em meio ao conflito no Oriente Médio. Menores aplicações de fertilizantes podem reduzir a produtividade agrícola e afetar a segurança alimentar de forma direta e indireta, principalmente em países mais vulneráveis. Países da Ásia, África e América Latina, por exemplo, são mais sensíveis aos impactos das tensões devido à sua dependência das importações de fertilizantes do Golfo. Nesses casos, até as alterações mais moderadas dos preços podem prejudicar largamente suas agriculturas, um setor de extrema relevância para suas economias. Dessa forma, a redução da oferta de fertilizantes afeta mais agudamente países que já enfrentam significativos problemas estruturais, reduzindo sua produção agrícola e o poder de compra das famílias.
Os países da região do Golfo Pérsico também estão largamente expostos ao aumento da insegurança alimentar provocada pela crise entre o Irã e os Estados Unidos. As oscilações na oferta de alimentos engendram vulnerabilidades, visto que muitos deles não possuem um setor agrícola forte, devido a questões climáticas e à escassez de água. Em tempos de paz, essa dependência é relativamente sustentável, mas em meio às tensões da região, importações de alimentos como trigo, arroz, açúcar e óleos vegetais são dificultadas por desafios logísticos e instabilidades no transporte marítimo.
Se o impasse não for rapidamente resolvido, será necessário considerar medidas preventivas, especialmente solicitar às instituições multilaterais o financiamento aos países que correm o risco de perder o acesso a fertilizantes básicos. Para isso, poderiam ser utilizadas as linhas de crédito para balança de pagamentos do Fundo Monetário Internacional e a Janela de Choque Alimentar, seguindo a Facilidade de Financiamento para Importação de Alimentos sugerida pela FAO em 2022. Isso permitiria que os países que precisam de fertilizantes hoje os obtivessem rapidamente sem desencadear competições distorcidas por subsídios.













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