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A Reação Ocidental ao Made in China 2025

  • May 5, 2020
  • 5 min read

O “Made in China 2025”, lançado em 2015, é uma estratégia anunciada pela China para transformá-la em uma potência tecnológica-industrial global. De acordo com os seus elaboradores, a partir de uma política de inovação, o país poderia se tornar uma das economias mais avançadas e competitivas do mundo. O plano de 10 anos, concentra-se no atingimento de proeminência global em 10 áreas principais: biomedicina e aparelhos médicos de alto desempenho; tecnologia da informação; veículos que economizam energia; equipamento elétrico; equipamento aeroespacial e de aviação; engenharia marítima e fabricação de embarcações de alta tecnologia; novos materiais; máquinas de controle numérico de ponta e automação; equipamento ferroviário; e equipamento agrícola. Nesse sentido, baseada em uma logística de fabricação e de promoção da chamada “smart manufacturing technology”, a China, além de expandir o mercado nacional, alcançaria níveis globais de desenvolvimento de sua produção.

Em um relatório publicado no final de 2016, o Mercator Institute for China Studies (MERICS) destaca a liderança do governo chinês na condução desse processo, com o emprego de políticas e medidas destinadas a prejudicar a concorrência estrangeira e favorecer as empresas nacionais. Além da promoção de atividades de hacking para roubar propriedade intelectual do exterior, o governo chinês impõe às empresas estrangeiras sediadas na China a formação de joint venture com empresa chinesa local, o que lhe dá acesso à tecnologia desenvolvida pela estrangeira. O terceiro braço de avanço tecnológico se dá através de investimentos no exterior: as empresas chinesas, amparadas pelo governo, adquirem empresas Ocidentais com tecnologia de ponta para acelerar seu progresso industrial em larga escala e obter um maior protagonismo na produção global de alta tecnologia. O objetivo, a longo prazo, é controlar os segmentos mais lucrativos das cadeias de suprimento e produção globais.

Evidentemente, essa iniciativa chinesa representa um desafio para as economias europeias e estadunidense. Acusado de ser injusto e desleal com os demais atores do sistema internacional, o gigante asiático vem sendo questionado acerca de suas condutas. Num relatório de junho de 2018 do Escritório de Comércio e Política Manufatureira da Casa Branca, o governo estadunidense condensou e detalhou minuciosamente as estratégias com viés agressivo que vêm sendo adotadas pelo país. Objetivando adquirir tecnologias e recursos de propriedade intelectual e capturar indústrias do futuro, o relatório alerta para algumas violações que o governo chinês vem executando não somente com os Estados Unidos como com demais países. Com relação a essas “trapaças econômicas”, a Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China observa que o gigante asiático, em particular, estaria envolvida em espionagem cibernética e roubo, falsificação e pirataria, além de marcos regulatórios coercitivos e intrusivos que forçariam a transferência de tecnologia de empresas estrangeiras, normalmente em troca de acesso limitado ao mercado chinês.

O relatório aponta ainda que, intimamente relacionados às campanhas de espionagem da China, há esforços apoiados pelo Estado chinês de fugir das leis de controle de exportação dos EUA. Tal ponto torna-se delicado por envolver questões de segurança nacional, e um significativo problema enfrentado pelos órgãos governamentais que implementam tais leis é o crescimento das tecnologias de "uso duplo", que têm tanto utilidade militar como civil. A China estaria usando empresas chinesas, controladas pelo Partido Comunista Chinês, para adquirir esta tecnologia e usá-la na modernização de suas forças armadas.

Outro ponto abordado pelo relatório e que é fundamental para compreender a empreitada chinesa é a questão dos investimentos. Além do documento apontar a política industrial de induzir investimentos em setores de alta tecnologia subsidiado pelo Estado (vale lembrar que subsídios prejudicam a concorrência e são contrários às regras do sistema multilateral de comércio), a trajetória de investimento de saída da China, o chamado investimento externo direto (IED), denota uma maior participação dos investidores chineses no mercado global. Nas últimas duas décadas, os índices de investimento externo chinês cresceram consideravelmente: até o início dos anos 2000, a nação asiática não detinha uma participação importante no investimento global. Impulsionado pelo afrouxamento de políticas por Pequim e por conjunturas globais favoráveis, o IED externo da China cresceu de quase nada para uma média de quase US$ 50 bilhões por ano no final dos anos 2000. O dinheiro fácil e a flexibilização da política chinesa em 2014 aumentaram os fluxos para mais de US$ 200 bilhões em 2016, provocando entusiasmo por novos capitais e ansiedade por riscos econômicos e de segurança. Apesar desse crescimento, desde 2016 até a atualidade há uma tendência de desaceleração desses investimentos chineses, algo que foi agravado agora em 2020 pela crise do coronavírus.

Algo importante no tangente aos investimentos e que vem alarmando as demais nações é a possibilidade de a China aproveitar a situação de crise ocasionado pela pandemia de COVID 19, que atrapalha a economia global e prejudica os fluxos de investimentos transfronteiriços no curto e no longo prazo, para avançar em seus investimentos internacionais. À medida que o vírus se espalhou, os mercados globais despencaram: as ações dos EUA caíram 36% no mínimo (até o momento) e as ações alemãs perderam 37%, e o Nikkei 225, principal índice econômico da Bolsa de Valores de Tóquio, caiu 29% no ponto mais baixo até agora. Assim como aconteceu no pós-crise de 2008-09, as empresas chinesas podem se aventurar a adquirir ativos, agora com alto desconto, em todo o mundo, especialmente aqueles úteis estrategicamente. Nesse sentido, coadunando com os interesses promovidos em seu plano, a China poderia vir a adquirir no mercado internacional empresas ocidentais de alta tecnologia muito mais facilmente. Além disso, ainda seriam interessantes outras mercadorias e commodities, como ferro, níquel, petróleo e uma infinidade de outros itens, para o país, que objetiva tornar-se independente.

A Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos, divulgada em 2018, resume bem a postura dos EUA em relação à China: "A competição estratégica interestatal, e não o terrorismo, é agora a principal preocupação na segurança nacional dos EUA. [...] A China é uma concorrente estratégica usando política econômica predatória." Em resposta à iniciativa chinesa, a Casa Branca decidiu impor restrições à exportação de tecnologia sensível para a China, em vista do evidente fortalecimento de seu poder militar e de seu desenvolvimento tecnológico superalimentado em conjunto. Três medidas acordadas por altas autoridades americanas, mas não finalizadas, introduziriam obstáculos que poderiam ser usados ​​para impedir que as empresas chinesas comprassem certos materiais ópticos, equipamentos de radar e semicondutores, entre outras coisas, dos Estados Unidos. Outras mudanças consideradas eliminariam a isenção civil, que permite a exportação de certa tecnologia dos EUA sem licença, se for para o uso de uma entidade não militar, além de que impediriam os militares da China de obter certos itens sem uma licença, mesmo que os comprassem para uso civil. É importante saber que algumas remessas dos EUA para o exterior são autorizadas com base em grande parte em se serão usadas para aplicações civis ou militares. Considera-se também uma medida que forçaria as empresas estrangeiras que transportam certos produtos americanos para a China a buscar aprovação não apenas de seus próprios governos, mas também do governo dos EUA.

Além dos Estados Unidos, outros países também têm se despertado para a ameaça das empreitadas chinesas, como o Reino Unido. Uma tentativa de assumir o controle da fabricante de chips gráficos britânica Imagination Technologies, uma das maiores e mais influentes empresas de tecnologia britânica na última década, por um investidor vinculado ao estado chinês, falhou após a intervenção do governo britânico. Caso essa jogada fosse bem-sucedida, a Imagination Technologies, que emprega 600 pessoas no Reino Unido, poderia ter sido transferida para a China.

Neste contexto, alguns governos Ocidentais estão sofrendo pressão para não instalarem o sistema 5G da Huawei, pois isto, segundo críticos e analistas de segurança, confiaria à China acesso a uma riqueza de dados comerciais e de segurança nacional.

Para tentar atenuar as reações e repercussões que já surgiram à sua estratégia, a China decidiu deixar, em segundo plano, o slogan “Made in China 2025”. A falta de referência pública e oficial ao projeto, porém, não significa que ele foi abandonado. Pelo contrário, o projeto está apenas sendo implementado discretamente. A competição industrial e tecnológica irá, portanto, continuar silenciosamente.

 
 
 

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