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O que Líbia e a Síria Têm em Comum

  • Mar 3, 2015
  • 3 min read

A Líbia de ontem é muito parecida com a Síria de hoje, ao passo que a Síria de amanhã poderá ser como a Líbia de hoje. Antes da intervenção da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) na Líbia, em 2011, o país era governado por um homem forte, Muamar Kadafi, que estava no poder há mais de 40 anos. A Líbia era (e ainda é) um país multiétnico e tribal, mas permanecia unido debaixo de uma única autoridade. Antes da intervenção militar, o ditador Kadafi estava se reaproximando do Ocidente, havia renunciado ao programa nuclear secreto e outras armas de destruição em massa, pagado as indenizações do ataque terrorista contra o vôo Pan Am 103, e preparava a transição do poder para seu filho, que foi educado na Europa e era conhecido como mais liberal e aberto à progressiva modernização do país.

Três anos após o fim da intervenção militar da OTAN, que acarretou a deposição e morte de Kadafi, a Líbia está irreconhecível. Ela experimenta sucessivas crises políticas (a Líbia já teve 7 chefes de governo em pouco mais de 3 anos e atualmente o governo se divide em duas facções rivais apoiadas por várias milícias armadas), o governo não exerce sua autoridade e controle sobre grande parte do país (regiões, cidades e aldeias são controladas por diferentes grupos rebeldes), há relatórios de graves e sistemáticas violações dos direitos humanos e do direitos humanitário, a economia tem estagnado (a produção de petróleo está 90% abaixo do nível da época do governo de Kadafi), grupos islâmicos radicais atuam com liberdade (inclusive o Estado Islâmico), e parte do antigo arsenal militar do país foi capturado e redistribuído entre os grupos rebeldes e até transportado para uso de grupos armados islâmicos em outros países (incluindo a Síria). Em suma, o país está um reconhecido caos. A Líbia é hoje uma fonte de instabilidade e insegurança para a região do Norte da África, e a presença do Estado Islâmico, unindo o Norte da África à Penísula Arábica, acrescenta novos desafios estratégicos à situação.

Se o regime de Assad cair, o que poderá acontecer com a Síria? Pode-se esperar, como ocorreu na Líbia, que os grupos rebeldes, que são Sunitas, irão retaliar severamente - ou até massacrar - os demais grupos étnicos e religiosos, especialmente aqueles que forem considerados aliados do regime, como os Alawites, os Cristãos, etc. Haverá também, como na Líbia e no Iraque, o expurgo de todo aquele que for considerado membro ou simpatizante do partido político do Presidente Assad, o Ba'ath, o que retirará da administração pública quadros treinados e experientes na prestação de serviços públicos essenciais. A administração do país seria, então, inviabilizada por muitos anos, por falta de quadros técnicos e pela destruição da infraestrutura. Pode-se também esperar, como na Líbia, uma guerra continuada entre os grupos rebeldes pelo poder, e a divisão do país em setores ou regiões controlados por diferentes grupos armados (isso já está acontecendo nesse exato momento). A experiência da Líbia demonstra que é muito difícil promover a desmobilização, desarmamento e reintegração de milhares de homens fortemente armados, veteranos de combate que integram dezenas de grupos armados rebeldes mais ou menos autônomos e cujos líderes possuem uma agenda política e financeira próprias. Assim como na Líbia, o Estado Sírio se tornará islamizado, com a imposição de uma versão de direito e governo islâmicos mais radicalizada.

A possibilidade da criação de um Estado curdo na Síria pós-Assad adicionaria um fator de complicação internacional, assim como uma expedição militar transfronteiriça no Líbano em retaliação contra o Hezbollah. Dependendo do regime que substituir Assad, há alta probabilidade de que países como o Irã, a Turquia , o Qatar, a Arábia Saudita, continuem intervindo, provocando ou apoiando a mudança do novo regime e a instabilidade do país. Uma coisa é certa: depois da experiência da Líbia, a OTAN não mais logrará obter uma autorização do Conselho de Segurança para intervenção militar sob a bandeira do princípio da responsabilidade de proteger.

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